Herança genética: uma surpresa nem sempre agradável

Herança genética: uma surpresa nem sempre agradável Por Lola Félix São Paulo, 05 (AE) - A palavra herança sugere algo bom, alguma riqueza, um presente inesperado, mas nem todo legado dos pais é necessariamente agradável. Doenças cardíacas, obesidade e diabete são algumas das doenças que podem ser passadas de uma geração para outra.

Agência Estado |

Todas as características físicas dos pais - boas ou ruins - podem ser transmitidas aos filhos, mas segundo o geneticista Luiz Garcia Alonso, do Departamento de Morfologia e Genética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), elas se modificam ao serem herdadas. "O ambiente vai modulando estas características", diz Alonso.

De acordo com a explicação do médico, se gêmeos de olhos claros são separados ao nascimento e um vai morar no Norte do Brasil e o outro na Suécia, com o passar dos anos o gêmeo que mora no Brasil terá o olho mais escuro uma vez que receberá mais luminosidade e produzirá mais melanina (proteína responsável pela pigmentação da pele, dos olhos e dos cabelos).

Para algumas doenças, o fator ambiental pode ser nulo, mas para outras pode ter grande peso. Os tumores, por exemplo, raramente são de base genética. Acredita-se que apenas de 5% a 10% deles tenham esta origem.

O fato de algo ser hereditário não significa que seja também irreversível. "A hereditariedade, hoje, deve ser considerada também pelo efeito do ambiente sobre os genes", diz o psiquiatra Marcelo Feijó, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Existem doenças que são claramente hereditárias e aparecem devido à alteração em um gene ou cromossomo. Deste processo surgem problemas como os erros inatos do metabolismo e a Síndrome de Down, por exemplo. Neste caso, a doença tem um caráter monogênico, pois foi transmitida por um único gene ou cromossomo defeituoso - e o ambiente tem seu papel zerado. Doenças mais comuns, como obesidade, diabete e hipertensão, têm um caráter poligênico. Ou seja: além dos genes, pesa a contribuição do ambiente.

Segundo Carlos Alberto Moreira Filho, superintendente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa(IIEP), nos últimos anos é que o estudo destas doenças comuns se intensificou, graças ao seqüenciamento do genoma. "Por meio da genômica, que é o estudo de todos os genes e sua resposta aos efeitos ambientais, conseguimos identificar quais os genes ativos em um tumor, por exemplo", explica Moreira. Com isso, médicos passaram a prescrever tratamentos personalizados para os pacientes, aumentando as chances de sucesso das terapias.

Boxe 1: FILHOS DE PAIS DEPRESSIVOS PODEM SER DEPRESSIVOS TAMBÉM DEVIDO À HERANÇA GENÉTICA?
"Existem evidências de que a depressão tem uma forte predisposição hereditária", explica o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O que Mello quer dizer é que a depressão é uma doença muito comum entre pessoas da mesma família e que sua transmissão por meio dos genes é muito importante, embora não determinante, uma vez que fatores ambientais também estão presentes.

Um dos principais determinantes ambientais é o cuidado materno que a pessoa recebeu na infância. Dependendo dos cuidados que a mãe teve com os filhos, eles podem ter uma menor ou maior capacidade de enfrentar situações de estresse quando adulto. Um estudo publicado no ‘Archives of General Psychiatry’ constatou que os filhos de uma mulher que já passou por uma depressão têm o dobro de chance de vir a sofrer deste transtorno do humor.

Segundo Feijó, filhos de mães depressivas têm mais chances de serem depressivos desde o útero. "A mãe que estiver deprimida durante a gestação pode passar por meio da placenta hormônios relacionados ao estresse, estressando o bebê, que já nasce mais irritado e com possíveis seqüelas ao seu desenvolvimento", conta.

Boxe 2: PROBLEMAS ORTOPÉDICOS SÃO HEREDITÁRIOS?
Segundo o ortopedista Fabio Ravaglia, presidente da organização não-governamental Instituto Ortopedia & Saúde, a maior parte das doenças ortopédicas hereditárias atinge recém-nascidos. Entre estas doenças, Ravaglia destaca o pé plano (pé chato), a escoliose congênita, o joelho varo e o pé escavado (pé cavo), entre outras.

Outras doenças hereditárias freqüentes são joanete, osteoporose e artrose, que acometem principalmente pessoas adultas. Estas doenças, no entanto, podem se agravar por diversos fatores - como o uso de um calçado inadequado.

Boxe 3: PAIS OBESOS TÊM MAIS FILHOS OBESOS?
Dados da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) revelam que quando pai e mãe são gordos, o filho tem 80% de chances de vir a ser um adulto gordo. Se a obesidade é uma doença que atinge apenas o pai ou a mãe, esse risco diminui para 50%.

Endocrinologista da Unifesp, Antonio Chacra acredita que as influências externas (tais como a alimentação e o sedentarismo, por exemplo) sejam mais decisivas que a genética no desenvolvimento da doença. "O filho de pais obesos provavelmente apresenta maus hábitos alimentares", aposta.

Boxe 4: SE MEUS PAIS SÃO DIABÉTICOS, QUAIS AS CHANCES QUE TENHO DE TER A DOENÇA TAMBÉM?
Segundo o estudo ‘Pregnancy, Your Baby and Diabetes’, da University of Virginia Health System, mulheres com diabete tipo 1 têm de 1% a 2% de chances de passar o problema para seus filhos. Já os filhos de mulheres com o tipo 2 têm de 20% a 30% de chances de também terem diabete. Este último é o caso da pesquisadora Thaís Barbosa, 18 anos. Ela tem diabete tipo 2 e seu pai e irmã têm o mesmo problema. "Os médicos disseram que é de família. Além do meu pai, meu avô era diabético", diz.

Pai de Thaís, Albélvio Batista Barbosa conta que sente-se preocupado com as filhas. "Não gostaria que o que acontece comigo acontecesse com elas também", conta.

Segundo o endocrinologista Antonio Chacra, da Unifesp, a genética é muito importante na diabete do tipo 2, mas seu desenvolvimento está bastante associado aos hábitos de vida. Por isso, Thaís não descuida da dieta que mantém sua doença sob controle. "No diabete tipo 2 existe uma associação entre obesidade, sedentarismo, estresse e maus hábitos alimentares", explica Chacra.

No diabete tipo 1 o desenvolvimento da moléstia é ligado à produção de anticorpos anti-células beta (produtoras de insulina), levando a uma deficiência total de insulina.

Boxe 5: MEU PAI É CALVO. MEU DESTINO É SER CARECA?
Calvície é um problema genético, segundo o dermatologista Ademir Jr., do Grupo de Apoio e Pesquisa em Calvície Androgenética (GAPCA). Existem, porém, vários tipos de quedas que não são genéticas. A probabilidade de o indivíduo ser calvo aumenta quando há calvície na família do pai e da mãe. "Em situações mais raras a calvície poderá pular uma geração, independente da família materna ou paterna terem os genes da calvície", diz.

Boxe 6: TUMORES TAMBÉM SÃO HEREDITÁRIOS?
De todos os casos de câncer existentes, apenas de 5% a 10% são hereditários, segundo dados do Instituto Brasileiro de Câncer (Inca). "Nos outros 90% a 95% dos casos, têm mais peso os fatores externos, tais como o tabagismo, a exposição ao sol ou a substâncias químicas cancerígenas", exemplifica Otavio Gampel, diretor do Serviço de Oncologia do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE).

Boxe 7: MEU PAI JÁ TEVE DOIS ENFARTES. CORRO RISCO DE TAMBÉM ENFARTAR?
A transmissão genética tem papel importante nas doenças cardiovasculares, entre elas o enfarte e o acidente vascular cerebral (AVC). "Filhos de enfartados (principalmente os que enfartaram jovens) têm maior possibilidade de ter enfarte", diz o cardiologista Leopoldo Piegas, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Segundo o especialista, a genética não é determinante. Hábitos de vida, alimentação, falta de exercício, tabagismo, hipertensão arterial e diabete são fatores que facilitam ou propiciam a manifestação da doença cardiovascular.

Boxe 8: EU USO ÓCULOS E MEUS PAIS TAMBÉM. HERDEI O PROBLEMA DELES?
Se você usa óculos, seus filhos têm grandes chances de usá-los também. "Se um dos pais é míope e o filho herda o gene da miopia, tem 50% de chances de se tornar míope. No caso de os pais serem portadores do gene e não apresentarem a doença, a probabilidade de o filho ser míope cai para 25%", diz o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, de Campinas.

A miopia pode, sim, ser transmitida geneticamente, mas não significa que ela seja passada de pai para filho. Queiroz ressalta que a visão se desenvolve até os seis anos e, dependendo dos problemas que ocorrerem neste período, os danos podem ser irreparáveis. A primeira consulta oftalmológica deve ser feita aos 3 anos de idade.

Além da miopia, existem outras doenças oculares que podem ser transmitidas geneticamente. Cerca de 40% dos casos de cegueira, por exemplo, são causados por doenças oculares hereditárias.

Boxe 9: UM SEGREDO PARA CADA GENE
A primeira coisa que os médicos deveriam fazer em uma consulta é perguntar todo o histórico da família. A afirmação, feita pelo especialista em genética Carlos Alberto Moreira Filho, superintendente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (IIEP)traduz de maneira bem simples o que é o planejamento genético.

Existem formas sofisticadas de descobrir se uma determinada doença veio dos pais. A técnica em biblioteconomia Pedrina Silva, de 42 anos, descobriu por meio de exames que sua obesidade era causada por um gene herdado de sua mãe, já falecida.

Quem estuda o assunto mais a fundo são os cientistas envolvidos no ‘Projeto Genoma Humano’, um empreendimento internacional que tem o objetivo de mapear os milhares de genes existentes no DNA humano. "Descobertas do projeto permitirão uma medicina muito mais personalizada e adequada às características individuais de cada paciente", diz Moreira.

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