SÃO PAULO ¿ Depois de terminar O Cheiro do Ralo, o diretor e roteirista Heitor Dhalia escreveu uma história que em nada lembra o filme estrelado por Selton Mello. No lugar do cinismo, humor bizarro e da aura de quadrinhos conferida pela participação do autor Lourenço Mutarelli, que ajudaram a transformar o longa em cult nalgumas rodas, entram as dúvidas do universo adolescente, o despertar da sexualidade e a dor dos conflitos familiares. Esse é o clima de À Deriva, exibido no último Festival de Cannes, que entra em cartaz nesta sexta-feira (31) no País.

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"À Deriva" mostra transformações da jovem Lauva Neiva ao lado da turma em Búzios

Filmada no ano passado em Búzios, no paradisíaco litoral fluminense, a história mostra o verão de Filipa (a estreante Laura Neiva), uma garota de 14 anos que passa as férias na praia com a família. Além de estar às voltas com a investida dos meninos e os jogos ambíguos da turma, a personagem testemunha a iminente separação dos pais, vividos pelo francês Vincent Cassel ("Senhores do Crime", "Irreversível") e por Debora Bloch. O caldo de relacionamentos é engrossado pelo global Cauã Reymond e a norte-americana Camilla Belle.

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Vincent Cassel e Debora Bloch

Em entrevista coletiva ao lado da equipe, em São Paulo, Dhalia mais uma vez ressaltou que o roteiro tem "forte traço pessoal", mas não é biográfico, e de certa forma retrata a primeira grande mudança na estrutura familiar brasileira, através do divórcio ¿ o filme se passa no início da década de 1980, caracterizado por figurinos de Alexandre Herchcovitch. "Esse território é muito subjetivo, quando se fala de relacionamentos", explicou.  "Tentamos falar disso sem julgar ninguém."

Escrito a princípio sem nenhum papel para estrangeiros, "À Deriva" foi modificado com a entrada de Cassel. Dhalia disse que em 2005, após passar o Carnaval inteiro escrevendo, ligou a televisão na Quarta-feira de Cinzas e viu por acaso o francês no programa Amaury Jr, falando um português fluente, fruto das frequentes vindas ao ator ao Brasil com a mulher, Monica Bellucci, e os filhos. A familiaridade com a língua foi o estalo para o convite, até porque a coprodução entre a O2 Filmes, de Fernando Meirelles, e a norte-americana Focus Features podia facilitar a parceria.

Apesar da presença de Cassel e de Debora, quem brilha mesmo no filme é Laura Neiva, protagonista absoluta da história. Hoje com 15 anos, paulistana, Laura foi escolhida depois de testes com mais de 600 candidatas. Encontrada pela produção de elenco no Orkut, ela não deu muita bola ao ver o primeiro recado, nem o segundo. Só começou a levar a sério quando o assédio chegou ao MSN e a garota, enfim, se convenceu que o convite era para valer. "A parte mais difícil foi convencer minha mãe", brincou.

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Vincent Cassel e Laura Neiva são pai e filha no brasileiro "À Deriva", de Heitor Dhalia

Para interpretar os outros jovens do filme, o diretor também optou por adolescentes não-profissionais, que atuaram de forma intuitiva: o roteiro foi lido com o grupo apenas uma vez, com todos juntos, e depois recolhido. Na hora das cenas, cada um era informado do que deveria fazer. "[François] Truffaut sempre falava que não existe verdade maior que uma criança na tela, e é isso mesmo. Transmite uma grande realidade", admitiu Dhalia. "Foi uma experiência interessante. De um lado, Debora, cheia de recursos, e Vincent, de outra escola, mais física, de muita força. Do outro, Laura e os outros adolescentes que nunca tinham trabalhado."

Mesmo com diversas experiências no cinema na década de 1980 ("Noites do Sertão", "Bete Balanço"), Debora não manteve o mesmo ritmo nos anos seguintes. À Deriva é seu grande retorno ao formato, no difícil papel de uma mãe que afoga as mágoas no álcool. Questionada sobre sua relação com a televisão, a atriz deixou clara a preferência pela tela grande. "A televisão não tem realidade nenhuma, nem tem esse compromisso. A TV tem outra função, que é mais entretenimento, mais descartável", disse. "Não que seja pior, é um canal importante para o povo brasileiro, e por isso se precisa trabalhar bem para as pessoas que não têm dinheiro para o ingresso do cinema."

Selecionado para a mostra paralela "Um Certo Olhar", em Cannes, "À Deriva" foi aplaudido de pé por cinco minutos após ser exibido no festival e teve boa recepção da crítica na França, onde o longa estreia no final de setembro. Até o momento, o filme já tem distribuição garantida em 11 países, mas o número deve aumentar depois da estreia no Brasil e o corpo-a-corpo da Focus no mercado internacional.

Assista ao trailer de "À Deriva":

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