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Hebraico continua sendo língua do inimigo na Jordânia

Abdul Khalil Mustafa. Amã, 16 nov (EFE).- Quinze anos após ter assinado a paz com Israel, vários intelectuais jordanianos continuam considerando o hebraico como a língua do inimigo e muitos se negam a traduzir qualquer obra neste idioma, enquanto outros o promovem, mas apenas como meio para conhecer melhor o inimigo sionista.

EFE |

Um grande número de intelectuais e especialistas em assuntos israelenses apoia uma tradução seletiva que ajude a revelar a "ideologia sionista" dos governantes de Israel.

Para eles, alguns textos em hebraico traduzidos podem contribuir para que os dirigentes árabes adotem políticas que frustrem as manobras israelenses na região.

Mesmo assim, rejeitam a tradução a todos os níveis, porque consideram que poderia ser uma ponte para a penetração cultural de Israel e incentivar a normalização das relações entre este país e seus vizinhos, apesar de Jordânia e Israel terem assinado um acordo de paz em 1994.

"Apoio a tradução seletiva do hebraico ao árabe para que a opinião pública árabe e os responsáveis políticos tomem consciência da ideologia sionista e de que forma influi profundamente na política israelense", diz à Agência Efe o especialista em assuntos israelenses Ghazi Saadi.

Este é o objetivo do centro de pesquisa e publicação Dar al-Jaleel, em Amã, dirigido por Saadi, onde nos últimos 15 anos foram traduzidos cerca de 100 livros.

Uma dessas obras é "A Place Among the Nations", do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que mostra, segundo Saadi, a ideologia extremista do político.

"Sua tradução ofereceu aos responsáveis árabes uma oportunidade de compreender as perigosas maquinações de Netanyahu em relação à terra e ao povo palestino, que agora estão refletidas em sua insistência de continuar a construção de assentamentos e a 'judaização' de Jerusalém Oriental", acrescenta o especialista.

No entanto, Saadi critica os Governos árabes "por não estar à altura de suas responsabilidades, ao ignorar (nesse momento) o conteúdo do livro de Netanyahu e se transformar, deste modo, em uma presa fácil de suas táticas".

Outra obra traduzida pelo centro é a autobiografia do ex-primeiro-ministro israelense Yitzhak Shamir, que reconhece, em seu livro, "ter cometido atos de terrorismo", segundo Saadi, quando fez parte de grupos armados judeus.

Nem mesmo as obras de literatura em hebraico escapam desta reticência e Saadi, apesar de ser firme defensor das traduções de alguns livros hebreus, acha que, em geral, as obras culturais de Israel "podem envenenar o pensamentos dos árabes e enfraquecer sua unidade para resistir aos planos israelenses e à ocupação de nossas terras".

Esta visão é compartilhada por muitos adeptos entre os islamitas e é apoiada também pela Associação de Escritores da Jordânia, que também não aprova a tradução de todos os textos.

Ibrahim Kilani, diretor do Comitê de Fatwas (éditos islâmicos) da Frente de Ação Islâmica (FAI), o principal partido da Jordânia, reconhece que este polêmico assunto está relacionado à cultura e à ideologia.

"Queremos preservar a cultura e a religião de nosso país, ao evitar a tradução de livros hebreus que buscam espalhar a sedição em nossas sociedades", acrescentou.

Neste sentido, Kilani expressou seu apoio à tradução das obras que forem benéficas para o mundo árabe e evitem que outros atentem contra seus interesses e suas sociedades.

Mas há também intelectuais e escritores jordanianos que apoiam a tradução do hebraico ao árabe sem restrições, mas sempre sem esquecer que é uma tradução do inimigo.

Para um dos membros da Associação de Escritores da Jordânia, Nawaf Zaro, a tradução seletiva foi no passado "benéfica para conhecer a natureza do pensamento sionista", mas, agora, considera que "dar as costas à literatura hebraica não mais se justifica, dada a duração do conflito com Israel".

Apesar desta suposta defesa das tradições literárias hebraicas, Zaro adverte que os escritores deste país "tentam impor sua versão do conflito árabe-israelense, que tem sua origem no suposto direito bíblico de Israel sobre a Palestina".

Mahmoud Amrat, professor de literatura hebraica na Universidade de Yarmouk, considera que "todos os livros hebraicos deveriam ser traduzidos ao árabe sem limites, para que estejamos plenamente conscientes de tudo o que se publica em Israel", Segundo ele, isso permitiria aos países árabes "estar em contato permanente com o pensamento sionista e preparados para enfrentá-lo".

EFE ajm/an

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