Harold Pinter, célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde

Pedro Alonso. Londres, 25 dez (EFE).- O célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, morreu em Londres aos 78 anos após uma longa batalha contra o câncer.

EFE |

A voz de Pinter, um dos escritores do Reino Unido mais influentes da segunda metade do século XX, se apagou para sempre nesta quarta-feira, segundo informou hoje sua segunda esposa, a também escritora Antonia Fraser.

"Ele foi grande", disse ela em uma breve declaração, na qual ressaltou que foi "um privilégio viver com ele durante 33 anos" e que Pinter "nunca será esquecido".

A doença já impediu o dramaturgo este mês de ir a sua posse como doutor "honoris causa" na Central School of Speech and Drama de Londres.

Após o anúncio da morte do polifacético artista, que descrevia a si próprio como "dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político", o mundo da cultura britânica chorou sua perda e exaltou seus talentos e méritos profissionais.

"Foi uma figura única no teatro britânico. Dominou a cena teatral desde os anos 50", afirmou Alan Yentob, diretor da "BBC".

Na opinião de Tim Walker, crítico do jornal "Sunday Telegraph", Pinter "forneceu realismo" às artes cênicas mediante obras "com prolongados silêncios, nos quais os personagens nem sempre iam a algum lugar, como na própria vida real".

Por sua vez, o amigo e autor de uma biografia sobre Pinter, Michael Billington, declarou-se "devastado" pela morte do dramaturgo, a quem descreveu como um "lutador" no terreno artístico e político.

Após publicar em 1957 sua primeira obra, "O Quarto", Pinter iniciou uma carreira na qual escreveu 29 peças teatrais, mais de 20 roteiros para cinema (entre eles para o diretor americano Joseph Losey), uma infinidade de trabalhos radiofônicos e televisivos, poesia, ensaios, um romance e curtos relatos de ficção.

Entre títulos inesquecíveis de Pinter, pertencente à geração dos Jovens Irados britânicos, destacam-se peças teatrais como "The Birthday Party", "The Caretaker" e "Old Times".

Seu estilo peculiar, cheio de silêncios em dramas marcados por uma linguagem ambígua e, às vezes, cômica, mas que gera um ambiente de ameaça e alienação, se cunhou como "pinteresco", adjetivo admitido pelo dicionário de inglês da Universidade de Oxford.

O escritor ganhou vários prêmios, como a Legião de Honra da França, mas destacou-se acima de tudo pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2005.

"Estou muito comovido. É algo que não esperava", comentou um Pinter já com a saúde frágil na porta de sua casa em Londres, após saber de sua conquista do Nobel.

Por recomendação médica, Pinter não pôde assistir à cerimônia de entrega do prestigioso prêmio em Estocolmo, mas gravou seu discurso de aceitação, no qual, como vinha fazendo nos últimos anos, dedicou suas críticas políticas mais ácidas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor dos Estados Unidos.

"A invasão do Iraque foi um ato de bandidos, um ato de flagrante terrorismo de Estado que demonstrou um desprezo absoluto do conceito de normativa internacional", afirmou Pinter, visivelmente débil e utilizando uma cadeira de rodas.

Sem papas na língua e mais rebelde do que nunca, o dramaturgo aproveitou o Nobel para pedir o processo do presidente dos EUA, George W. Bush, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair por crimes de guerra.

Durante sua vida, o autor, que se sentia obrigado a assumir uma posição política como "cidadão do mundo", abraçou outras causas como o desarmamento nuclear, a defesa de Cuba frente ao embargo americano e a rejeição ao bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia em 1999.

Filho de um alfaiate judeu imigrante da Europa Oriental, Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 em Hackney, bairro popular do leste de Londres.

O gênio teatral teve um filho, Daniel, fruto de seu casamento com a atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser.

Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Pinter dizia que sua vida literária era "uma vida de prazer, desafio e entusiasmo". EFE pa/ab/fr

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