Cidade do interior vive superlotação de refugiados. Governo do Acre e o Palácio do Planalto conseguiram mandá-los a outros Estados

Após a chegada de centenas de refugianos no final do ano passado e início de 2012, o governo do Acre iniciou um plano para transferir os haitianos para outros grandes centros do país. Entre os novos destinos dos haitianos estão cidades como Porto Velho (RO), São Paulo (SP), Florianópolis (SC) e Porto Alegre (RS).

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Haitianos se apertam por comida na praça Hugo Poli, em Brasileia, no Acre
Gleilson Miranda/Secom/Divulgação
Haitianos se apertam por comida na praça Hugo Poli, em Brasileia, no Acre
Nesta segunda-feira, 35 haitianos deixaram Brasileia, cidade a 237 quilômetros de Rio Branco, em direção a Porto Velho. O governo do Acre pretende enviar pelo menos 35 por dia até o final dessa semana como forma de se diminuir o número de refugiados que estão hoje no interior acreano. Brasileia chegou a ter 1,2 mil haitianos esperando um visto provisório e uma oportunidade de trabalho. Hoje, são cerca de 1.050.

Os custos de passagem e hospedagem destes haitianos estão sendo bancados pelo governo do Acre e também pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Justiça. Esses haitianos que partem de Brasileia serão reaproveitados em fazendas, indústrias alimentícias e frigoríficos em Porto Velho. A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos também articula com empresários do sul e sudeste oportunidade de trabalho na construção civil.

Haitianos em busca de um visto provisorio em Brasileia
Gleilson Miranda/Secom/Divulgação
Haitianos em busca de um visto provisorio em Brasileia
A expectativa é que durante essa semana, empresários do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo visitem Brasileia em busca de refugiados. “Graças a atenção da mídia nacional, muita coisa já foi solucionada e estamos conseguindo oportunidade de trabalho para eles”, disse. “Além disso, houve uma redução do fluxo migratório. Nos últimos dias, acho que recebemos no máximo 20 haitianos. Teve ocasião em que chegaram aqui 158 em um único dia”, complementou”.

A Polícia Federal da região também está realizando um esforço concentrado para expedir vistos provisórios para os refugiados. Pelo menos 350 haitianos já tem seu visto provisório de permanência no Brasil e esperam apenas uma oportunidade para deixar a cidade.

As condições de vida

Haitianos fazem comida no chão no hotel alugado pelo governo do Acre em Brasileia
Gleilson Miranda/Secom/Divulgação
Haitianos fazem comida no chão no hotel alugado pelo governo do Acre em Brasileia
A invasão haitiana vivida neste início de ano na região norte do País trouxe um problema social tanto para Tabatina, cidade do Amazonas distante 1.607 quilômetros de Manaus, quanto para Brasileia.

Entre a última semana do ano passado e a primeira de 2012, 760 haitianos entraram no Brasil pelas duas cidades (550 em Brasileia e 210 em Tabatinga). Quase todos por meio da ação de coiotes que cobram até U$$ 4,5 mil para facilitar a entrada deles no Oaís. Alguns deles conseguem hospedagem com amigos ou repartem o aluguel de quartos com outros haitianos. Muitos deles, não. Estima-se que 2,4 mil refugiados dos terremotos de 2010 estejam abrigados nas duas cidades nesse momento.

Haitianos no Hotel alugado pelo governo do Acre
Gleilson Miranda/Secom/Divulgação
Haitianos no Hotel alugado pelo governo do Acre
Saint-Louris Fresnel espera na praça Hugo Poli, em Brasileia, por um visto e uma oportunidade de emprego. Mas já pensa em voltar pra casa ao menos para enterrar o filho, de três anos, morto na  semana passada. As causas ainda são desconhecidas.

Para conseguir contato com a família em Porto Príncipe, ele conseguiu dois cartões telefônicos comprados por funcionários da Secretaria de Direitos Humanos no Acre. “Eu queria imigrar para qualquer país que tivesse oportunidade de melhora, então comecei a guardar dinheiro e esperar o primeiro movimento de imigração para me juntar a ele. Me disseram que aqui tinha trabalho, no Haiti não há nada, só desolação”, disse Fresnel.

Quem conseguiu abrigo em Brasileia, vive em condições muito ruins. Antes do terremoto no Haiti, Angelina e Wesley Saint-Fleur vendiam motos e tecidos importados. Tinham uma casa confortável com cinco cômodos. Fugiram há nove meses, estavam no Equador e chegaram no final do ano ao Brasil. Hoje, moram em um banheiro de um hotel alugado pelo governo do Acre em Brasileia com o filho de 4 meses.O hotel tem capacidade para 100 pessoas mas abriga 800 refugiados.

O casal veio para o Brasil pensando em mandar dinheiro para três filhos e para o pai de Wesley, que ficou no Haiti com as crianças. “Dói muito o meu coração saber que eles não têm o que comer e que estão numa situação cada vez pior”, disse Wesley. “O que quero é trabalhar e ajudá-los”, complementa. O casal precisa de doações para conseguir fraudas para o pequeno Isaac, de 4 meses.

Nos hospitais, também aumentou o fluxo de haitianos tanto em Brasileia quanto em Tabatinga. A preocupação dos moradores nos dois municípios é que esse grande número de haitianos comprometa o atendimento médico e a segurança nas duas cidades. Nas duas cidades, os postos de saúde estão superlotados com haitianos. Em Tabatinga, há receio que faltem alimentos aos haitianos hoje sustentados basicamente com a ajuda da Igreja Católica do Município.

Os haitianos Angelina e Wesley Saint-Fleur moram em banheiro no Acre
Gleilson Miranda/Secom/Divulgação
Os haitianos Angelina e Wesley Saint-Fleur moram em banheiro no Acre
A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) manifestou preocupação com as condições de sobrevivência dos haitianos em Tabatiga e já prepara um documento para denunciar o problema. “O primeiro passo é melhorar as condições básicas de vida dessas pessoas, até que elas mesmas sejam capazes de se manter. Isto é essencial para evitar a deterioração de sua saúde e uma série de distúrbios psicológicos”, disse Renata de Oliveira, coordenadora do projeto de Médicos Sem Fronteiras em Tabatinga por meio de nota oficial.

Segundo informações da Polícia Federal, um visto de permanência para os refugiados demora entre 30 e 40 dias para ser expedido. A demora é fruto da grande demanda nas duas cidades, ligado ao extenso processo de investigação de cada pedido. Para expedir um visto provisório, a PF investiga a vida do interessado, principalmente a sua ficha criminal. Somente em Brasileia, existem 320 haitianos com visto provisório, mas sem dinheiro para seguir viagem para outras cidades brasileiras.

*Com informações da Agência Acre de notícias

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