Belém - Representantes de movimentos sociais haitianos e de organizações internacionais de direitos humanos discutiram no Fórum Social Mundial a situação do Haiti e da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do país (Minustah). As críticas estão voltadas principalmente ao comando militar brasileiro da missão do ONU.

O professor de economia da Universidade de Estado do Haiti e integrante da Campanha Jubileu Sul, Camille Chalmers, coordenou as reuniões com lideranças de movimentos sociais brasileiros e latino-americanos. Segundo ele, ainda este ano haverá uma missão de solidariedade ao Haiti. Serão convidados 25 representantes de movimentos da América Latina para uma visita ao país, possivelmente no dia 1º de maio.

Para Chalmers, a Minustah transformou-se em uma ocupação militar que segue o jogo do imperialismo. Apesar de dizerem que a maioria das tropas são sul-americanas, a direção e a orientação estratégica política está nas mãos dos Estados Unidos. Me parece muito feio que os soldados do Brasil estejam colaborando para este tipo de projeto, criticou Chalmers, em entrevista à Rádio Nacional da Amazônia.

Há um momento de indignação popular crescente. Esse sentimento pode resultar em rebeliões e em uma posição insustentável para a tropa, que não pode fazer repressões massivas. Se os movimentos sociais do Brasil e da América Latina nos apoiarem, podemos conseguir a saída das tropas e a conversão dessa cooperação brasileira em um projeto solidário real.

Camille Chalmers foi chefe de gabinete do ex-presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, entre 1993 e 1994. Apesar de ter feito parte do governo, ele tem uma avaliação crítica da gestão de Aristide. Reconhece que o ex-presidente frustrou as expectativas do haitianos e não realizou um mandato popular, adotando medidas de ajuste econômico e social no país recomendadas pelos Estados Unidos.

No primeiro momento, a participação do Brasil na missão de estabilização oferecia boas perspectivas. Mas hoje percebemos que está se gastando quase US$ 6 milhões por ano para manter de pé um aparelho militar sofisticado. Esses recursos poderiam ser usados para ajudar realmente o povo no Haiti, com investimento em áreas como saneamento, ecologia e saúde.

O professor de economia da Universidade de Estado do Haiti acredita que ainda é possível construir um projeto de cooperação mais solidário entre os dois países, principalmente por conta da base cultura e histórica comum.

No entanto, precisamos passar dessa fase de repressão, de violação de direitos. O que ocorre hoje não é solidariedade, nem apoio, é dominação. E o mais grave é que esse parece ser um ensaio de novas formas de ocupação militar. Temos que denunciar isso e converter essa missão numa verdadeira missão de solidariedade, que respeite os direitos dos povos do Haiti e a cultura haitiana.

Camille Chalmers foi convidado pela Via Campesina para fazer uma análise de conjuntura em nome dos movimentos sociais, durante encontro com os presidentes latino-americanos, na última quinta-feira (29). Em seu discurso, falando em espanhol com sotaque francês, ele ressaltou o papel de líderes da região, como José Martí e Fidel Castro, e a resistência dos povos do Caribe.

Para Chalmers, a América Latina é a única região do mundo que passou da resistência frente à dominação do capitalismo neoliberal à construção de alternativas concretas, como os governos da Venezuela e da Bolívia.

As conquistas atuais se realizam em um grande e contínuo processo heróico de luta de nossos povos contra os exércitos europeus, luta contra o genocídio dos povos originários, luta contra a escravidão, contra o racismo, contra o patriarcado, contra o neocolonialismo e várias formas de dominação capitalista. Os movimentos populares nascem desse longo processo de acumulação de forças e seguem desempenhando um papel chave na resistência.

Para o economista haitiano, o espaço do Fórum Social Mundial contribui para a consolidação de uma nova cultura política e para a construção de diferentes formas de relação entre governos e movimentos sociais. Chalmers destacou como um dos avanços recentes da América Latina a experiência equatoriana de auditoria da dívida externa.

Estamos avançando, mas temos sérios desafios pela frente. A luta do capital transnacional contra nossos povos, contra nosso planeta, contra as civilizações com milenária sabedoria popular, seguem se intensificando. A reinvenção de novas formas de relacionamento entre governos progressistas e movimentos sociais é uma das chaves para acelerar o processo de acumulação de forças orientadas para a reprodução do sistema capitalista e para a edificação de sociedades novas, de homens e mulheres novos".

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