Hábitos culturais favorecem intestino preguiçoso

Hábitos culturais favorecem intestino preguiçoso Por Carlos Walter Sobrado* Constipação intestinal, obstipação intestinal, intestino preguiçoso, intestino preso ou prisão de ventre são termos utilizados para designar um sintoma frequente, que incide numa parcela significativa da população, acometendo crianças, adultos, homens e mulheres e expressa uma dificuldade na evacuação intestinal, resultando em número considerável de consultas médicas. O desconforto causado pela prisão de ventre interfere de modo acentuado na qualidade de vida dessas pessoas, levando-as, inicialmente, a tentarem soluções por meio de acertos medicamentosos por decisão própria ou sugestão leiga.

Agência Estado |

Com alguma frequência, mesmo os profissionais da área de saúde envolvidos na atenção desses doentes costumam abordar o problema com certa simplicidade, que se resume na prescrição de algum modelo laxativo, igualando todos os casos, sem a preocupação de distinguir as diferentes anormalidades que podem estar implicadas na origem da queixa.

É bem verdade que os portadores de obstipação têm como expectativa, quando buscam atendimento médico, receber a prescrição de um medicamento que solucione sua dificuldade para evacuar. A constipação intestinal é um sintoma que pode ser decorrente de várias doenças, que podem ser funcionais ou orgânicas, como hipotireoidismo, diabete mellitus, doença de Chagas, doença de Parkinson, doença diverticular, câncer colorretal, uso indiscriminado de medicamentos antiácidos, antidepressivos, diuréticos, analgésicos, entre outras.

Para muitos, o intestino preguiçoso é caracterizado apenas pela diminuição da frequência evacuatória (menos de três vezes por semana), porém fezes endurecidas, esforço para defecar, fezes com calibre e volume reduzidos, sensação de evacuação incompleta e manobras digitais (auxílio da mão) para facilitar a saída das fezes, também fazem parte do conceito mais amplo da constipação.

É duas vezes mais frequente no sexo feminino e em crianças, sendo que sua incidência aumenta com o evoluir da idade, estando presente em aproximadamente 40% das pessoas com mais de 65 anos de idade. No Brasil, de acordo com a pesquisa AC Nielsen de julho de 2003, cerca de 32% das mulheres (29 milhões de pessoas) e 6% dos homens (5,5 milhões) sofrem desse mal.

A maior frequência nas mulheres é decorrente de refeições em horários irregulares, não inclusão de quantidade adequada de fibras na dieta, consumo de pouca água e vida sedentária. A educação também é um fator muito importante, pois quando viajam não conseguem ir ao banheiro.

No trabalho, onde passam regularmente oito horas por dia, possuem o terrível hábito de "se segurarem". Não evacuam quando têm vontade, inibem o reflexo evacuatório, o que provoca endurecimento das fezes, fazendo com que tenham de fazer esforço para defecar. Com o tempo, perdem o reflexo evacuatório e ficam "ressecadas".

Outro grave problema a ser salientado são as mulheres que se consideram obstipadas e, por conta própria, resolvem tomar laxantes ou chás "naturais" com poder laxativo, acreditando que, além de regularem o intestino podem perder peso. Isso é um grande perigo, pois, se o intestino percebe que não precisa mais "trabalhar" para funcionar, e esses chás e laxantes, que são irritantes da mucosa intestinal, fazem isso por ele, ficará progressivamente cada vez mais difícil ter o hábito intestinal regular.

Devemos aumentar gradativamente a ingestão de fibras (25 a 30 gramas de fibras por dia), tomar 8 a 10 copos de água diariamente, aumentar o consumo de probióticos (alimentos que contenham uma cepa específica de micro-organismos vivos benéficos ao organismo e que tenham comprovação científica em atuar de forma eficaz no intestino), ter atividades físicas regulares e diárias, ter obediência ao reflexo da evacuação e ater-se à defecação durante o momento evacuatório, evitando distrações (leitura, telefonemas, Orkut, MSN, planejar a agenda, etc.).

Fatores hormonais também podem estar presentes nas mulheres com intestino preguiçoso, sendo que no período pré-menstrual esse problema é menos frequente, pois a grande variação hormonal que ocorre nos dias que antecedem a menstruação provoca um relaxamento do intestino.

Muitas mulheres percebem claramente que o fundo emocional influencia negativamente o funcionamento intestinal. Elas devem se conscientizar de que as fezes são apenas os produtos finais de nossa digestão e evacuar é apenas um ato fisiológico natural, assim como fazer xixi, comer ou beber água. Todos esses hábitos são fruto de condicionamento cultural, mais precisamente de nossa educação, que são passados de geração para geração.

Independentemente de a causa da constipação ser psicológica ou física (orgânica), a primeira providência é rever a dieta, aumentar a ingestão de fibras, iogurtes probióticos e líquidos, realizar atividades físicas regulares e obedecer ao desejo evacuatório. Se não surtir efeito, deve-se procurar um médico especialista.

Importante frisar que, quando a prisão de ventre vier acompanhada de algum sinal de alarme (sangue nas fezes, emagrecimento, cólicas e perda de muco-catarro nas fezes), deve-se procurar atendimento médico com urgência, pois é necessário realizar exames para descartar doenças de maior gravidade.

*O Dr. Carlos Walter Sobrado é mestre e doutor em Cirurgia pela Faculdade de Medicina da USP e professor-assistente Doutor da Disciplina de Coloproctologia do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da FMUSP.

** O conteúdo dos artigos médicos é de responsabilidade exclusiva dos autores.

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