Grupos de 3ª idade já contam com tour cultural personalizado Por Ciça Vallerio São Paulo, 18 (AE) - Ficar em casa assistindo à televisão não combina com Mercedes Prates Belotti. Cheia de energia, toda semana ela tem ao menos uma programação cultural agendada.

É nesse dia que a viúva de 78 anos capricha no look para ir ao teatro, seu passeio preferido, mas não descarta shows, concertos e até restaurantes badalados. O segredo para manter-se tão atualizada com a extensa programação cultural da cidade é contar com um serviço próprio para a terceira idade, que inclui a compra do ingresso e transportes de ida e volta.

"É a maior mordomia, uma maravilha", atesta Mercedes. "Se não fosse por isso, ficaria em casa." Os tours culturais para a terceira idade prosperaram nos últimos anos, mas nem por isso são fáceis de serem encontrados - numa busca pela internet, por exemplo. Isso porque a propaganda é feita pelo boca a boca, uma vez que boa parte da clientela não está familiarizada com o mundo digital. Quem conhece indica, e os "iniciados" passam a receber pelo correio a programação do mês.

Nesse negócio, vale muito o tête-à-tête. "Tem de telefonar para manter o contato direto", avisa a pedagoga aposentada Guile Penteado Vaz Ferreira, de 60 anos, que montou uma vasta clientela durante os mais de dez anos à frente da Tours da Guile. "A proximidade é tamanha que sei a história de cada uma." É justamente isso o que elas querem: atenção e cuidado, além de um trabalho profissional.

Há muito mais mulheres usufruindo desse serviço do que casais ou homens. A maioria é formada por viúvas com idades que variam de 60 a 85 anos e, claro, elas têm uma boa aposentadoria para bancar os passeios. Outras são casadas, mas como os maridos não gostam de sair, elas acabam indo sozinhas. A convivência com o grupo faz brotar novas amizades e turmas, que decidem se reunir por conta própria em outras ocasiões.

PREÇOS

Apesar de a clientela pagar meia-entrada, por causa da idade, os custos com transporte e com a comodidade de não precisar sair correndo para comprar ingressos não são baixos. A peça "A Loba de Ray-Ban", por exemplo, estrelada por Cristiane Torloni, ficou em R$ 120,00, considerando que os ingressos custavam entre R$ 70,00 e R$ 80,00 na bilheteria.

Com preços assim, dá até para imaginar que esse é um trabalho bem remunerado. Mas as responsáveis, que atuam como autônomas, garantem que não é bem assim. "Não ganho quase nada: ao contrário de anos atrás, hoje tem muita concorrência e os ingressos estão caros", diz Darilma Freitas Guimarães, de 72 anos, que oferece o serviço há mais de dez anos.

Professora de piano, ela viu a procura por suas aulas desaparecer à medida em que o instrumento foi perdendo espaço na educação infantil. Quando soube que existia esse tipo de trabalho, decidiu apostar as fichas no negócio, que leva o nome Clube de Lazer VoiVolto.

Para oferecer o melhor para a clientela, é preciso se informar sobre as principais atrações da cidade, selecionar as que mais caem no gosto das senhoras e comprar ingressos com dois meses de antecedência - nos melhores lugares, para facilitar a visão e audição.

Como os espetáculos mais disputados são também os mais procurados pelas clientes, não dá para bobear. É necessário monitorar pela internet e por telefone a data do início das vendas dos ingressos para garantir os bons assentos. Mas, às vezes, uma aposta de sucesso pode se tornar um mico. Foi o que aconteceu com o show de Donna Summer: sobraram ingressos e Guile, uma das promotoras desse serviço, teve de fazer plantão na porta da casa de espetáculo para vendê-los pelo preço real.

PREFERÊNCIA

As atrações de maior sucesso são as comédias. "Elas geralmente não gostam de monólogos, exceto quando são representados por grandes atores", avisa Lavínia Ribeiro do Valle, de 69 anos, que trabalha nesse ramo há 13. "Peças tristes não entram, pois, como elas costumam dizer, ninguém quer pagar para sofrer."

Outro item que encarece o serviço é o transporte. Dependendo do número de participantes, Guile aluga uma van para buscar a mulherada. Se o grupo é pequeno, usa carros. Como o trânsito de São Paulo está cada vez mais caótico, ela prioriza as moradoras da zona oeste e sul. Darilma, por sua vez, contrata motoristas para buscar e levar suas clientes nos bairros Moema, Campo Belo, Morumbi, Itaim Bibi, Jardins e Higienópolis. E os grupos são sempre pequenos, com 12 pessoas no máximo.

Lavínia, da RV Tour & Arte, costuma dirigir seu próprio carro Corolla - com quatro portas - e pegar suas passageiras no Brooklin, Morumbi, Alto de Pinheiros e Higienópolis. Quando o grupo é maior, ela conta com a ajuda de seu filho para fazer o traslado, mas não é raro levar apenas duas pessoas ao teatro.

Assim como a clientela é basicamente feminina, as organizadoras desses passeios também são mulheres na sua maioria. Primam pela atenção e carinho, a ponto de levarem as clientes até ao toalete quando necessário.

A autonomia que esse tipo de serviço proporciona, além do conforto, é comemorada por Maria Cristina Prates Belotti, de 50 anos, filha da viúva Mercedes. "Ela não precisa ficar pedindo para ninguém levá-la aos programas culturais, tem liberdade para ir aonde deseja", ressalta. "E como precisa se arrumar para passear, esse tipo de programa mexe com a autoestima, além de estimular o intelecto."

A mãe, Mercedes, concorda: "Tenho de me manter sempre atualizada, lendo jornais, para saber aonde vou." E quando os gostos das duas batem, vão juntas ao teatro ou a um show, sem que Maria Cristina precise dirigir seu carro. Aliás, acontece de haver pessoas de outras gerações nesses grupos da terceira idade. É quando filhas e netas se unem à matriarca para curtir uma noite cultural, com toda a mordomia à qual têm direito.

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