Grupo Galpão redescobre teatro de rua na abertura do Festival de Curitiba

Um clima de alegria e deslumbramento arrebatou a Ópera de Arame, no Parque das Pedreiras, para marcar o começo da 19ª edição do Festival de Teatro de Curitiba. A abertura para convidados aconteceu na terça-feira, mas a largada da mostra principal foi dada mesmo na noite de ontem, com a apresentação de ¿Till, a saga de um herói torto¿, do Grupo Galpão, de Belo Horizonte.

Marco Tomazzoni, enviado a Curitiba |

Gustavo Wanderley / Divulgação

A atriz Inês Peixoto como Till: teatro popular e humor da companhia mineira

O teatro de rua está nos genes da companhia mineira desde sua criação, há quase três décadas. Agora, depois de uma série de espetáculos que se distanciaram da comédia popular, entre eles adaptações de Gógol, Brecht e um ensaio de Tchecov para o excelente documentário Moscou, de Eduardo Coutinho, o Galpão volta a investir na comunicação direta com o público, mantendo suas idiossincrasias de sempre.

Partindo do folclore alemão, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu escreveu a trajetória de um anti-herói com forte ligação com Macunaíma. Um dia, um Diabo engravatado e com cascos apostou com Deus que se tirasse as qualidades de uma boa alma, ela inevitavelmente cairia em perdição. A partir disso, resolveram privá-la de apenas uma ¿ a inteligência ¿ e Till veio ao mundo. Veio, mas não foi tão fácil assim.

Ele não nasceu grande como o personagem de Mario de Andrade, mas o garoto teve gestação de 13 meses e, após um parto frustrado, resolveu ficar outros cinco anos na barriga da mãe. Folgado, mesmo depois de grande queria dar um jeito de voltar para o lugar de onde veio. A fome e a miséria da Alemanha medieval são um prato cheio para que ele apronte trapaça atrás de trapaça, em uma parábola com ingredientes burlescos e na qual a escatologia é um atalho fácil para as risadas. Nas entrelinhas, a moral anunciada com pompa: será a consciência a última coisa que resta ao homem?

Como de praxe, os próprios integrantes da trupe fazem a trilha sonora ao vivo, tocando sax, sanfona, trompete, guitarra, xilofone e muito outros, em um revezamento de instrumentos similar àquele em acontece em cena, entre atores e personagens. O figurino, composto a partir de materiais recicláveis, é criativo e funcional, assim como a dramaturgia, na qual o fogo e os alçapões no palco são as maiores surpresas. Tudo com forte representação popular, e por isso quase impossível de não se gostar.

Esse retorno do Galpão ao teatro de rua só seria completo se de fato a peça saísse dos teatros. E é o que o grupo vem fazendo por onde passa, como já aconteceu, por exemplo, em São Paulo e Rio de Janeiro. Aqui em Curitiba, a Ópera de Arame sedia o espetáculo por mais dois dias, nesta quinta e sexta. Depois, no sábado, às 17h, e domingo, às 15h, a companhia se muda para o Parque Barigui, onde faz apresentações gratuitas. Aí, Till estará em seu território natural e a identificação deve ser completa.

Na noite desta quinta-feira, acontecem duas estreias aguardadas do festival: Música para Ninar Dinossauros, primeira peça de Mario Bartolotto após a tentativa de assalto na qual foi baleado em São Paulo, e Cinema, ensaio aberto da curitibana Sutil Companhia de Teatro, dirigido por Felipe Hirsch. Também na mostra principal, está a comédia Caderno de Memórias, dirigida por Moacyr Góes e protagonizada pela atriz Dira Paes.

* O repórter viajou a convite do festival

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