Grass comemora aniversário com tambor e leitura na Feira de Frankfurt

Rodrigo Zuleta. Frankfurt (Alemanha), 16 out (EFE).- O Prêmio Nobel de Literatura Günter Grass comemorou hoje seu aniversário na Feira do Livro de Frankfurt e lembrou os 50 anos de seu romance mais famoso, O tambor, em um espetáculo com direito a presença do percussionista Günter Baby Sommer.

EFE |

Grass leu fragmentos da obra (lançada na Feira de Frankfurt de 1959 para se transformar imediatamente em sucesso de vendas) e uma parte de "Meu século", no qual lembra precisamente a aparição de "O tambor" em um ano considerado mágico para a literatura alemã do pós-guerra.

Como fez questão de lembrar com frequência por causa do cinqüentenário do livro "O tambor", naquele ano foram publicados outros dois livros "Bilhar às nove e meia", de Heinrich Böll, e "Conjeturas sobre Jakob" de Uwe Johnson - que se transformaram em clássicos da segunda metade do século 20.

Grass, no livro "Meu século", referiu-se a isso ao contar como, enquanto ele escapava do cansaço da Feira e das 20 mil novidades em uma festa da editora Luchterhand, os jornalistas escreviam artigos com títulos como "literatura alemã surge no pós-guerra" e "Grass e Böll triunfam".

Desde o lançamento de "O tambor", em 1959, muito mudou na Feira.

Já não são mais apresentadas 20 mil novidades, mas sim 100 mil e a amostra já não é exclusividade de livros.

Grass referiu-se ao local onde ocorreu a sua homenagem, um cinema situado em um pavilhão da Feira, é relativamente novo e faz parte de uma nova seção dedicada às relações entre cinema e literatura.

"O tambor" é um exemplo dessas relações já que foi levado ao cinema por Volker Schlöndorff em um filme que acabou ganhando um Oscar.

Além disso, Grass mudou de editora há anos e a Lüchterhand não tinha nada a ver com a festa deste ano, organizada por Steidl.

Para a leitura ele escolheu passagens especialmente rítmicas de "O tambor" - entre outros, dois poemas que fazem parte do romance - e o ritmo do texto era complementado com a marcação de Sommer em uma bateria gigantesca com a qual conseguiu, desde o começo do ato, construir uma atmosfera de mistério e distância em torno à voz de Grass.

Nas pausas da leitura, era possível ver como o escritor estava compenetrado com o ritmo ditado por Sommer, que acompanhava balançando a perna direita.

Ao final, inclusive, pode ter a impressão que Grass estava a ponto de começar a cantar seu romance e a frase com a qual terminou o espetáculo foi dita em coro por Grass e Sommer.

Em outro ato, o escritor italiano Claudio Magris - que receberá no domingo o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães - expressou sua esperança que algum dia exista um Estado europeu e disse que é quase ridículo que Itália, França e Alemanha tenham legislações diferentes.

"Nossos problemas já não são nacionais. Por isso necessitamos um estado europeu. Sonho com o dia em que tenhamos um estado europeu, embora isso não vá a ocorrer ainda", disse Magris.

Apesar do seu sonho, Magris opinou que por enquanto há muitas dificuldades para que a Europa chegue a uma união e reforçou que ainda há muitos temores que levem a uma nova onda de movimentos nacionalistas em alguns países.

"Por exemplo, eu escrevi um artigo malicioso sobre isso, há gente que acha que nos colégios só se devem estudar os escritores locais.

Aplicar isso ao pé da letra implicaria transformar Pirandello (Luigi, escritor italiano) em leitura obrigatória na Sicília, mas proibido na Lombardia", disse Magris.

"Há temor também sobre o nivelamento e isso leva a outro perigo maior que é o perigo do isolamento", acrescentou o autor de "Biografia do Danúbio".

Sobre o prêmio e a contribuição que suas obras possam ter feito à Europa, Magris disse que tomara o júri tenha razão em sua afirmação que a obra impulsionou, mas esclareceu que isso não tinha sido intencionalmente e a literatura de valor não parte de uma intenção política nem moral.

Magris aproveitou o discurso para criticar o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, quem classificou de representante de uma política pop prejudicial a toda Europa. EFE rz/dm

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