Governo muda BB e endurece cruzada contra spreads

Por Isabel Versiani e Natuza Nery BRASÍLIA (Reuters) - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o comando do Banco do Brasil nesta quarta-feira, deixando claro que sua cruzada por spreads bancários mais baixos é para valer e que está disposto a adotar medidas duras para alcançar o objetivo.

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Sem admitir que a substituição de Antonio Francisco Lima Neto por Aldemir Bendine esteja relacionada a uma insatisfação com os juros cobrados pelo BB, o próprio presidente Lula e ministros reforçaram a determinação em reduzir as taxas.

"A redução do spread bancário neste momento é uma obsessão minha", disse o presidente a jornalistas, em meio a perguntas sobre a saída de Lima Neto.

"Nós precisamos fazer o spread bancário voltar à normalidade no país... O (ministro da Fazenda) Guido (Mantega) sabe disso, o Banco do Brasil sabe disso, a Caixa Econômica sabe disso, o Banco Central sabe disso", acrescentou Lula, no que pode ser visto como uma ameaça aos gestores econômicos.

"Não há nenhuma necessidade de o spread bancário ter subido tanto no Brasil de julho para cá."

Um pouco depois, ao confirmar o nome de Bendine como novo presidente do BB, Mantega disse a jornalistas que ele assumirá o banco "com uma missão específica, com um contrato de gestão em que vai se comprometer a agilizar a liberação de crédito, incorporar novos clientes".

E a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, teria sido ainda mais explícita.

Segundo relato do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, Dilma afirmou em encontro com sindicalistas e Lula que "o governo não aguenta mais negociar o spread bancário" e que "os presidentes dos bancos públicos pensam que o banco é deles."

A ministra ainda comentou, de acordo com o sindicalista, que "banco público não pode cobrar um spread desses, (banco público) é para puxar desenvolvimento".

INGERÊNCIA POLÍTICA?

Apesar de todas as declarações, Mantega procurou negar qualquer tipo de interferência política sobre as decisões do BB, embora tenha lembrado que o governo é o maior acionista do banco.

"Falar em ingerência política e partidária é uma bobagem", disse o ministro. "Os acionistas podem ficar tranquilos, o profissionalismo será mantido."

Ele destacou que Bendine, como Lima Neto, é profissional de carreira do BB e que sua escolha obedeceu critérios de competência.

Bendine, que vinha atuando como vice-presidente de Cartões e Novos Negócios de Varejo, negou ser filiado a partido político. "Eu não sou filiado ao PT e a nenhum partido político e não tenho nenhuma vinculação partidária", disse.

Mas a reação do mercado mostrou que os investidores estão céticos quanto às garantias apresentadas pelo governo.

"A ingerência política não me permite recomendar compra para os papéis do banco, apesar de o potencial de valorização das ações", disse João Augusto Frota Salles, economista da consultoria Lopes Filho.

As ações do BB desabaram 8,15 por cento, para 17,35 reais, enquanto o índice das principais ações da Bovespa subiu 0,8 por cento.

(Reportagem adicional de Fernando Exman, em Brasiía, e Aluísio Alves, em São Paulo)

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