RIO DE JANEIRO ¿ A economista zambiana Dambisa Moyo foi o destaque da última conferência do festival Back 2 Black, que termina neste domingo no Rio de Janeiro, ao defender de forma contundente uma África para os africanos em mesa de discussão que contou com a participação de Gilberto Gil e do diplomata Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras.

A ativista e política moçambicana Graça Machel, mulher do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, também participaria do debate, mas cancelou sua vinda ao Brasil devido a "motivos de doença", segundo uma carta divulgada pela organização do festival no sábado.

Pouco antes da conferência, em entrevista à Agência Efe, Moyo deu o tom do que viria a seguir. "Não acredito que um europeu tenha um ponto de vista melhor do que o meu, uma africana", disse a economista, nascida e criada na Zâmbia, país do sul da África.

Ela é conhecida na Europa e nos Estados Unidos por ter escrito o livro "Dead Aid", no qual defende que a ajuda humanitária concedida à África não ajuda a resolver os problemas do continente.

"Em 50 anos, a África recebeu US$ 1 trilhão em ajuda humanitária. Nesse período, a pobreza, a corrupção e a inflação aumentaram, enquanto o crescimento econômico diminuiu", argumenta Moyo, que também critica a interferência externa nos assuntos africanos. "Não são os líderes africanos que falam pela África, são as celebridades", diz.

Gilberto Gil demonstrou ter uma postura similar à economista em declarações à Efe também antes da conferência. "A ajuda humanitária dos países nórdicos e da China, por exemplo, trazem uma contrapartida embutida. Esses países levam sua própria mão-de-obra e seu modo de produção para a África. Além disso, a ajuda estimula a corrupção", afirma o cantor, que fez o primeiro show do Back 2 Black na última sexta-feira.

Na conferência, Moyo e Gil retomaram seus pontos de vista críticos sobre o papel da ajuda humanitária destinada à África. A economista foi especialmente dura ao falar da imagem africana no mundo e de como isso afeta os habitantes do continente.

"Desde o dia em que nasceram, os africanos ouvem que não vão chegar lá. Como formar engenheiros, médicos, quando celebridades e políticos dizem que não vamos chegar lá? Precisamos pensar na África de uma forma mais positiva. Enquanto não fizermos com que os africanos confiem em si mesmos, não teremos feito progresso", disse Moyo, em uma das muitas vezes em que foi aplaudida pela plateia.

Já Gilberto Gil falou que "a África paga, até hoje, custos exorbitantes em relação à colonização, diferentemente de países da América Latina e da Ásia" e afirmou que o mundo "não pode" se desenvolver de forma globalizada com sucesso sem a participação dos africanos.

Ao retomar a fala, Moyo fez uma comparação interessante para ilustrar a interferência de estrangeiros nos temas africanos.

"Quando os brasileiros querem respostas sobre seus problemas, querem ouvir o presidente Lula ou Bob Geldof?", em referência ao organizador do Live Aid (1985) e Live 8 (2005), eventos cujo objetivo era arrecadar ajuda humanitária para a África.

Ele participou da conferência que abriu o Back 2 Black junto com o ativista e escritor sul-africano Breyton Breytenbach.

"Se conseguimos levar o homem à Lua, porque não erradicamos a fome na África? Não estou dizendo que não é possível, estou dizendo que escolhemos não fazê-lo", desafiou a economista. "Que achem outro continente para sentir pena, porque não vamos mais tolerar isso", concluiu Dambisa Moyo, para mais aplausos do público presente.

O festival Back 2 Black chega ao fim hoje à noite com um grande show no qual artistas de diferentes partes do mundo se apresentarão.

A célebre cantora cubana Omara Portuondo (que gravou um álbum com Maria Bethânia lançado em 2008), a beninense Angélique Kidjo e artistas brasileiros como Luiz Melodia, Dona Ivone Lara e Marina Lima são alguns dos que dividirão o palco no encerramento sob o comando da sambista Mart'nália.

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