NOVA ORLEANS - Assim como ocorreu com diversas enfermidades, as doenças que afetam a medula óssea e as células que compõem o sangue se beneficiaram enormemente do conhecimento acumulado no campo da genética após a publicação do genoma humano, há quase uma década.

Os resultados de diversas pesquisas apresentadas no 51º encontro da Sociedade Americana de Hematolgia, que termina amanhã, em Nova Orleans,  nos Estados Unidos, mostram que o surgimento de novos tratamentos e a melhora nos protocolos de tratamento já existentes estão cada vez mais fundamentados no estudo das bases genéticas dessas enfermidades.

Muito embora a origem das diversas doenças da medula óssea e das células do sangue ainda esteja longe de ser totalmente elucidada, a descoberta de alterações genéticas associadas a elas, e mais ainda, o estudo minucioso de como essas anormalidades influenciam na evolução das doenças, está dando origem a drogas extremamente precisas.

Desenvolvidas para atuar na origem do problema, elas diferem das quimioterapias por serem menos agressivas ao organismo e por atuarem diretamente no DNA das células doentes, sem prejuízo às células saudáveis. Um bom exemplo é a classe de remédios conhecida como hipometilantes, recentemente aprovados para uso no mercado brasileiro. Os princípios ativos azacitidina e decitabina estão sendo usados, em baixas doses, para tratar a síndrome mielodisplasica, ou mielodisplasia ¿ um grupo de doenças que afetam as células da medula óssea, comprometendo sua capacidade de produzir glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas. Em muitos casos, a mielodisplasia pode evoluir para leucemia aguda, um grave câncer da medula óssea.

A mielodisplasia afeta sobretudo pessoas acima de 60 anos, e o risco de incidência da doença cresce com o avanço da idade. Em muitos casos, ela pode evoluir para leucemia aguda, um câncer que afeta os glóbulos brancos, células responsáveis por proteger o organismo contra doenças. Não existem estatísticas nacionais sobre a mielodisplasia, mas, para se ter uma ideia, só nos Estados Unidos, são diagnosticados 13 mil novos casos por ano da doença.  Até o surgimento dos hipometilantes, a enfermidade era combatida com um tratamento de suporte, limitado apenas a aumentar as quantidades de glóbulos vermelhos e brancos no corpo.

Hoje, sabe-se que a mielodisplasia está associada a alguma anormalidade genética nos cromossomos das células da medula. Embora ainda não consigam apontar especificamente como isso ocorre, os cientistas descobriram que os hipometilantes atuam justamente nesses defeitos.

São drogas inteligentes. Suprimindo a expressão errada dos genes, eles corrigem os erros de programação da célula doente, fazendo com que ela volte a se diferenciar como uma célula saudável, explica a hematologista Yana Novis, do Hospital Sírio Libanês, que participa do congresso em Nova Orleans.

O mais curioso é que muitos remédios testados hoje para tratar cânceres do sangue de forma direcionada já existem há algum tempo. Os hipometilantes, por exemplo, surgiram no início da década de 90 e eram usados como quimioterápicos, em doses muito altas. Somente com estudos mais detalhados sobre a ação de pequenas quantidades dessas drogas no núcleo da célula ¿ onde esta o DNA ¿ é que os cientistas perceberam os potenciais benefícios para tratar a síndrome mielodisplasica.

Para o hematologista Brian Durie, do Cedars-Sinai Comprehensive Cancer Center, da Califórnia, testar a ação de quantidades reduzidas de medicamentos já conhecidos no combate às doenças hematológicas, e em especial os cânceres do sangue, é um caminho promissor na busca de mais e melhores opções para tratá-las. Se colocamos em estudo uma droga já conhecida e concluímos que há nela um novo e eficaz uso, temos aí um novo tratamento. Isso certamente encurta em uns 10 anos o longo e dispendioso processo de desenvolvimento de um medicamento. Quem se beneficia disso é o paciente, que, na maioria das vezes, não pode esperar o final desse processo, diz o médico.

*Leoleli Camargo viajou a Nova Orleans a convite da Celgene

Leia mais sobre: genética

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.