PARATY ¿ É difícil encontrar um par de escritores, profissionais que nem sempre se dão muito bem com o palco (quando não fogem dele), com uma tranqüilidade e presença de espírito tão singulares quanto Neil Gaiman e Richard Price. O esperado encontro de dois nomes de destaque na literatura de língua inglesa ¿ o primeiro pelo apoio do público, o outro querido pela crítica especializada ¿ rendeu, no final da manhã deste sábado (05), um dos momentos mais saborosos e aplaudidos da 6ª edição da Flip, uma mistura de sinceridade, displicência e muito bom humor.

Sob a mediação de Marcelo Tas, que desempenhou seu papel de forma desigual, adotando uma postura mais de entrevistador e fã curioso, a dupla iniciou a conversa na Tenda dos Autores falando sobre como conseguem criar diálogos tão naturais e desenvoltos em suas obras. Price, nova-iorquino responsável por diversos roteiros (A Cor do Dinheiro, Vítimas de uma Paixão O Preço de um Resgate) e autor do elogiado Lush Life, que será lançado em 2009, antes de falar agradeceu a Paraty pela cachaça: obrigado por colocarem ela em minha vida, nunca imaginei que uma dor de cabeça pudesse durar tanto e ser tão forte.

Segundo ele, as falas de seus livros parecem reais, mas são falsas, e é assim que devem ser. O diálogo real é um pesadelo em um livro, parece um filme ruim de Andy Warhol. Diálogo bom é o falso, que tira as hesitações, coloca as falas ordenadas, mas mantém a atitude e dá a ilusão de ser que é assim mesmo que as pessoas falam.

Idolatrado criador dos quadrinhos Sandman e de romances e histórias infantis igualmente celebrados, Gaiman seguiu a mesma linha de pensamento de Price e atribuiu sua habilidade ao início da carreira como jornalista, em Londres. O diálogo real é inútil, não faz sentido. Ao fazer entrevistas, descobri que não dá para escrever literalmente o que as pessoas falam, simplesmente porque não usam frases. Por isso, aprendi a transformar o que disseram no que, na verdade, queriam dizer. Além disso, apontou que o limite de 30 palavras para os balões de histórias em quadrinhos o obrigaram a polir ainda mais seu discurso.

Outro ponto que uniu os dois autores, além do fato de fazerem caretas e lerem seus textos em voz alta no momento de escrever (o que, confessaram, teria trazido problemas familiares para ambos), é a proximidade com o cinema. Para Price, no entanto, apesar da larga experiência em Hollywood, o período escrevendo roteiros foi só uma forma de acumular dinheiro e ganhar tempo para finalmente poder se dedicar aos romances.

Richard Price na Flip / Foto: Walter Craveiro

Neste momento, quero apenas escrever livros. Antigamente, imaginava que só poderia escrever sobre minha vida, e então, aos 32 anos, percebi que não sabia mais o que fazer. Mas depois percebi que podia aprender muito mais, com a rotinas da polícia, submundo, e que havia um mundo inteiro para descobrir lá fora.

Gaiman também atrelou seu trabalho na indústria cinematográfica aos muitos dólares que isso traz para a conta bancária. Me dei conta que se escrevesse um filme a cada 18 meses, minha família teria seguro-saúde, então faço isso. No caso do projeto de adaptar Morte, personagem derivada de Sandman para as telas, previsto para o próximo ano, admitiu que era mais em defesa própria do que uma paixão pela sétima arte. Depois disso, vou me trancar em um quarto por dez anos e só escrever romances, brincou.

Bem-humorados, os dois ainda debocharam do infame incidente em que Mel Gibson, bêbado, fez um discurso anti-semita ¿ ajudei ele a escrever isso, disse Price, para Gaiman completar, ele também me ligou ¿, e falaram sobre tietagem. O quadrinista, bastante assediado na Flip e protagonista de uma notória sessão de autógrafos com 1,2 mil fãs em São Paulo, afirmou que a relação varia de país para país: enquanto no Brasil a série Sandman lhe rendeu fama, na Polônia é famoso por seu um autor pós-moderno, graças a seus romances, e em outras partes da Europa, são seus livros infantis que fazem sucesso.

Embora reconheça que na maioria das vezes só vê o assédio como um elogio, lembrou uma ocasião assustadora, a campeã de todas, em que um fã em Los Angeles pediu que o escritor autografasse seu braço, logo abaixo de uma tatuagem de um de seus personagens. Duas horas depois, percebi que ele tinha voltado à fila, para me mostrar, ainda com o braço sangrando, que também havia tatuado o autógrafo.

O pouco tempo para perguntas, uma constante nos debates em Paraty, deixou no fim da mesa um sentimento de frustração na boca do público, que em seguida correu para tentar conseguir, claro, um autógrafo dos ídolos. Não devem ter sido poucos os que arregaçaram a camiseta para que Gaiman deixasse uma lembrança.

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