Fuzis recuperados foram vendidos ao tráfico e a PMs assaltantes de banco

Armas roubadas de quartéis do Exército custam menos para os criminosos do que contrabandear de países vizinhos

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

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Fuzil roubado de quartel catarinense seria vendido a chefe do tráfico
Fuzis usados pelo Exército (Fal e Parafal calibre 762) costumam ser adquiridos por criminosos em países vizinhos, como o Paraguai, por preços que ficam entre R$ 35 mil e R$ 40 mil, segundo policiais consultados pela reportagem do iG .

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As investigações sobre roubos dos fuzis que foram recuperados pelo Exército, no entanto, mostram que bandidos adquirem as armas desviadas de quartéis por preços muito menores, como aconteceu com o o fuzil calibre 762 que foi subtraído da 13ª Companhia de Depósito de Armamento e Munição na cidade de Itaara, no Rio Grande do Sul, em março deste ano.

A arma foi recuperada durante um assalto a uma agência bancária na cidade de Júlio de Castilhos, no interior gaúcho, no dia 25 do mesmo mês. Um soldado que servia no quartel foi acusado de desviar a arma com a promessa de receber R$ 2 mil que seriam arrecadados durante o roubo, que seria executado por PMs.

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O militar foi denunciado e preso. Três PMs também foram presos após o assalto e depois expulsos da Brigada Militar gaúcha.

Soldado pediu R$ 15 mil, mas recebeu R$ 1.200

No 15 de dezembro do ano passado, um fuzil foi roubado do 63º Batalhão de Infantaria, em Florianópolis, em Santa Catarina. Na ocasião, um soldado relatou a outros dois colegas que tinha recebido uma proposta de R$ 20 mil para vender um fuzil calibre 762 do quartel.

Após subtrair a arma com a ajuda dos colegas, o soldado que recebeu a proposta entregou o fuzil ao chefe do tráfico na localidade conhecida como Casinhas do Zanellato, que fica na cidade de São José, no interior catarinense.

De acordo com o relatório do inquérito, o militar pediu R$ 15 mil pelo fuzil. Inicialmente, ele recebeu R$ 1.200. O restante seria pago posteriormente.

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Os três soldados foram denunciados e a arma acabou sendo devolvida voluntariamente ao Exército pelo próprio traficante no dia 26 do mesmo mês.

Cara de Mau

Outro caso ocorrido este ano foi o furto de dois fuzis do 5º Batalhão de Infantaria da Selva, na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, no dia 15 de julho.

Segundo a denúncia feita pelo Ministério Público Militar, um soldado subtraiu dois fuzis Para Fal e vendeu as armas para dois criminosos, conhecidos pelas alcunhas de Joel Pingo e Cara de Mau, por R$ 10 mil. O militar foi denunciado pelo crime e está preso.

A Promotoria não conseguiu identificar que tipo de atividade criminosa exercia os dois bandidos citados na denúncia.

Na época do fato, o Exército chegou a cogitar a possibilidade de os fuzis serem negociados com guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) já que a cidade faz fronteira com a Colômbia, mas nada foi confirmado. O Comando Militar da Amazônia, de onde o quartel é subordinado, informou que as investigações continuam.

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Os dois fuzis foram achados por um funcionário da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) no dia 23 de agosto em uma fazenda de sua propriedade no município. O proprietário alegou que estava procurando documentos que havia perdido em uma mata e encontrou as armas.

Roubo de fuzil por causa de gravidez

Em Brasília, no dia 26 de outubro do passado, um fuzil calibre 762 foi levado do 32º Grupo de Artilharia de Campanha. Um militar roubou a arma e entregou para um civil por meio de uma cerca que separava o quartel de uma vila residencial.

O suspeito, então, escondeu o fuzil em uma casa abandonada da cidade de Jardim Ingá, em Goiás. Ele acabou tendo a identidade revelada pelo militar e indicou onde estava o fuzil, que foi recuperado.

Segundo as investigações, o militar que desviou o fuzil vendeu a arma por R$ 5 mil sob alegação que sua mulher estava grávida e ele precisava de dinheiro. Ele foi denunciado assim como o comparsa.

Neste ano, pelo menos dois fuzis com o brasão do Exército brasileiro foram apreendidos com criminosos. O último deles, no início deste mês, na cidade de Valença, no interior da Bahia.

A arma, de calibre 762, estava com uma jovem de 18 anos que repassaria a arma para dois traficantes menores de idade. Todos foram presos. A polícia ainda investiga a origem do fuzil.

O outro fuzil calibre 762 com o brasão do Exército foi apreendido em abril no Rio de Janeiro. A arma foi encontrada por PMs do Batalhão de Policiamento em Vias Especiais (BPRv) nas proximidades do Conjunto Habitacional Amarelinho, em Irajá, na zona norte da capital fluminense. A origem também está sendo investigada.

Munições desviadas no PA iriam para assaltantes

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Munição do Exército desviada de quartel no Pará e apreendida pela polícia
Além dos fuzis, munições para este tipo de arma também foram desviadas do Exército este ano. No dia 29 de abril, 465 balas para fuzil calibre 762 foram desviadas do 52º Batalhão de Infantaria de Selva (52º BIS) na cidade de Marabá, no Pará.

Na ocasião, soldados permitiram o ingresso de dois ex-militares no quartel. A dupla, então, destruiu o cadeado da porta do paiol e subtraiu as munições.

As balas foram encontradas no dia 4 de maio pela Polícia Civil. Três soldados foram presos pelo crime. As munições seriam vendidas a uma quadrilha de assaltantes de banco no Maranhão por R$ 30 a unidade.

No Rio, cerca de 2 mil munições desapareceram do Batalhão de Escola de Comunicações do Exército em junho. Na época do fato, cerca de 400 militares chegaram a ficar detidos no quartel por alguns dias mas o caso ainda não foi esclarecido.

O inquérito atualmente está na 1ª Auditoria da Circunscrição da Justiça Militar e não tem ainda nenhum indiciado.


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