Fugi para não ser linchado, diz motorista que atropelou ciclistas

Ricardo Neis disse, em depoimento, que "não teve alternativa" e que seria "linchado" se continuasse no local. MP pediu sua prisão

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

nullO bancário Ricardo José Neis, de 47 anos, que atropelou um grupo de ciclistas em Porto Alegre na última sexta, se apresentou nesta segunda-feira à Delegacia de Crimes de Trânsito. Após um depoimento de quase quatro horas, ele falou rapidamente com os jornalistas e alegou estar em pânico e ter acelerado sobre os ciclistas com medo de ser linchado. “Estou tremendamente transtornado. Lamento muito, mas não tive alternativa. Eles fizeram várias agressões. Não eram todos, mas o pessoal que estava mais atrás. Era uma espécie de milícia”, afirmou Neis.

Neis se apresentou à Delegacia de Trânsito pouco antes das 12h acompanhado de dois advogados. Por volta das 17h, foi liberado e responderá o processo em liberdade. Na noite de sexta-feira, Neis atropelou um grupo de pelo menos 100 ciclistas que integram o movimento “Massa Crítica”, que defende o uso da bicicleta. Cerca de 15 pessoas ficaram feridas e oito foram encaminhadas ao Hospital de Pronto Socorro. Todos tiveram alta ainda no sábado. Imagens feitas por um ciclista mostram o momento em que o motorista acelerou, atropelando as pessoas que estavam pela frente.

O bancário disse que tinha medo que ele e seu filho, que o acompanhava no momento, fossem agredidos. “Eu tinha que fazer isso. Não consigo dormir. Eles estavam batendo no carro. Se eu ficasse no local, seria linchado”, disse Neis.

Pedido de prisão

Daniel Cassol
Ricardo José Neis atropelou ciclistas no centro de Porto Alegre (RS)
Nesta noite, o Ministério Público (MP) Estadual do Rio Grande do Sul pediu a prisão preventiva de Ricardo Neis. Em entrevista à "Rádio Gaúcha", o promotor Eugênio Amorim considerou que a gravidade do fato não podia esperar o término da investigação policial, previsto para daqui a um mês. Afirmou, ainda, que o que houve foi uma tentativa de homicídio múltiplo com uso de veículo automotor justamente contra pessoas que pregam a paz no trânsito. O plantão do Judiciário não havia se manifestado até as 21 horas.

Ciclistas

Enquanto o motorista prestava depoimento, diversos ciclistas e pedestres que estavam no local compareceram à delegacia. Eles relatam que, no início da marcha, a rua José do Patrocínio foi fechada para a segurança dos ciclistas. Ricardo Neis teria se irritado e acelerado sobre a marcha, atingindo duas bicicletas. Algumas quadras à frente, ele perseguiu o grupo e atropelou os ciclistas por trás, em alta velocidade.

Com quatro pontos na cabeça e o braço esquerdo quebrado em duas partes, Ricardo Ambus contou que houve uma discussão com o motorista no início da marcha do Massa Crítica, mas, na sua opinião, isso não justifica tal reação. "Até hoje vejo o vídeo e fico emocionado. Para mim, ele é um assassino", declarou.

Daniel Cassol
Ricardo Ambus quebrou o braço ao ser atropelado
Melissa Webster também prestou depoimento. Na sexta-feira, ela estava acompanhada da mãe, Sheila Ramos, que pela segunda vez participava da manifestação. Sheila foi arremessada sobre o automóvel. "A imagem da minha mãe voando sobre o carro não me sai da cabeça. Foi a primeira vez que vi um milagre na minha vida", se emociona.

O entregador Marcos Rodrigues, que usa a bicicleta no seu trabalho, foi um dos mais atingidos. Ele bateu a cabeça e chegou a ficar inconsciente. “Ele usou o carro para ameaçar os ciclistas. Não tem nenhuma explicação. Foi um ato hediondo e esperamos que a justiça seja feita”, afirmou.

O motorista esteve na delegacia acompanhado dos advogados Luís Fernando Coimbra Albino e Jair Junco. Eles defendem a tese de que seu cliente estava em pânico e quis proteger a vida do filho. “Ele não poderia ter uma velocidade mais reduzida porque estava cercado. Ele buscou minimizar a situação, tanto que houve lesões corporais e danos materiais, mas nenhuma vítima fatal. Ele disse que estava transtornado, em pânico”, declarou Albino.

O advogado diz que foi procurado por uma amiga em comum para defender o motorista, mas que deve deixar o processo já que é diretor administrativo e financeiro da Carris, a empresa de ônibus da prefeitura de Porto Alegre.

nullO delegado Gilberto Montenegro não concedeu entrevistas. No domingo, ele sugeriu que houve excesso das duas partes. "Houve uma ação e uma reação. O grupo deveria ter comunicado a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação) e a Brigada Militar (BM, a Polícia Militar gaúcha) sobre o passeio. Um para coordenar o trânsito e permitir o amplo direito de ir e vir, o outro para segurança", disse.

Para Marcos Rodrigues, um dos ciclistas que foi atingido, a tese é infeliz. “A EPTC não vai me escoltar quando eu saio para trabalhar de bicicleta. Além disso, sabe que o Massa Crítica se reúne todo o mês. É uma declaração infeliz”, criticou.

Os integrantes do Massa Crítica estão convocando um protesto nesta terça, às 19h, no Largo Zumbi dos Palmares, onde tradicionalmente o grupo se concentra. Na quinta-feira, eles se reunirão com o advogado Pablo Weiss, também ciclista, que está representando as vítimas. “Nosso principal objetivo agora é comprovar que foi uma tentativa de homicídio. Depois, iremos tomar uma decisão em conjunto sobre que tipo de medidas judiciais serão tomadas”, explicou.

    Leia tudo sobre: atropelamentociclistastrânsitomotorista

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG