Frase de Lula estremece relação entre PT e PMDB de Temer

Por Natuza Nery e Fernando Exman BRASÍLIA (Reuters) - Quando tudo parecia tranquilo, um repentino sabor amargo surgiu no noivado entre PMDB e PT e acendeu um sinal amarelo na desejada aliança para eleger a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência.

Reuters |

De forma extemporânea, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu na quinta-feira uma lista tríplice do PMDB para escolha do vice, e acabou ferindo o presidente licenciado da legenda, deputado Michel Temer (SP), hoje no comando da Câmara Federal e principal cotado na dobradinha.

A declaração golpeou frontalmente o líder da sigla, fundamental para carimbar o consórcio governista no ano que vem, e maculou o recente período de tranquilidade entre as duas legendas.

Só o tempo e os movimentos do Palácio do Planalto dirão se essa mácula correrá indelével até a convenção nacional do PMDB, em junho, com potencial de melar o jogo da unidade.

Segundo integrantes da sigla, Temer foi publicamente preterido apenas dias depois de ser citado, sem provas, em denúncias de receber dinheiro indevido da construtora Camargo Corrêa e de ser beneficiário do propinoduto supostamente comandado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (ex-DEM).

Temer atribui a setores próximos ao presidente notinhas apócrifas nos jornais dando conta de seu enfraquecimento.

"A leitura é de que eles (governo) estão afastando o Temer, sinalizando o afastamento dele como o nome natural do partido para assumir a vaga de vice", disse uma fonte do PMDB.

"Lista tríplice? O que é isso, eleição para reitor de universidade?", questionou a mesma fonte.

Temer é o principal articulador da aliança e vem afirmando nunca ter colocado seu nome na posição de vice para viabilizar o casamento com o PT, mas sim de que o posto preferencial é do PMDB.

O Planalto ficou preocupado com a repercussão negativa e iniciou uma operação para reverter a situação. O ministro Franklin Martins, um dos mais fortes da Esplanada, telefonou a Temer para acalmá-lo e prometeu uma ligação do próprio Lula nas próximas horas.

BERZOINI DESAUTORIZA

Num sinal de que o problema atingiu em cheio as negociações para a formação da chapa, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), saiu a campo para tentar reduzir o constrangimento gerado no PMDB pela presidente: afirmou que Lula não falou pelo PT.

"Não houve nenhum tipo de encaminhamento nesse sentido (de lista tríplice) e quem está conduzindo as conversas com o PMDB é o PT. Eu já liguei para o Michel Temer e para o Henrique Eduardo Alves (líder do PMDB na Câmara) e já disse que isso não corresponde à posição do PT", destacou Berzoini.

"Chapa se compõe sempre pelo entendimento de dois lados. Nós estamos indicando a Dilma. Se eles tiverem alguma opinião em relação à Dilma, eles têm que dizer e vice-versa. Até agora, todas as conversas são o seguinte: quem indica o vice é o PMDB", acrescentou.

Berzoini disse acreditar que a operação realizada nesta sexta tenha contornado a situação. Para os peemedebistas, entretanto, o assunto não foi encerrado.

Nenhum integrante da cúpula comandada por Temer diz que o atual capítulo da crise se encerra com "um telefonema".

"É preciso mais que isso, pois não resolve a questão. É preciso ver ao longo do tempo se muda o comportamento", disse um dos peemedebistas consultados.

Um auxiliar de Lula disse, na condição de anonimato: "Nós vamos resolver isso".

A tarefa, no entanto, será árdua. Durante seu comentário, dado a duas rádios do Maranhão, o presidente da República afirmou que o vice precisa ter afinidade com a futura candidata, e é justamente esse o condimento que falta à relação do peemedebista com Dilma Rousseff.

O comentário de Lula desidrata Temer internamente, sobretudo num cenário de partido dividido entre um eventual apoio ao pré-candidato tucano, José Serra, e a hipótese remota de candidatura própria. O episódio dá robustez justamente à dissidência do PMDB.

Reforça também especulações sobre outros nomes que poderiam ocupar a vaga de vice na chapa de Dilma, o que a cúpula peemedebista encabeçada por Temer quer evitar. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, recém-filiado, e os ministros Edison Lobão (Minas e Energia) e Hélio Costa (Comunicações) são frequentemente citados como possíveis alternativas ao nome do presidente da Câmara.

A relação de Michel Temer com Lula foi ruim nos quatro primeiros anos do governo. Ele representava a ala oposicionista do partido, enquanto Lula se ancorava no apoio de outros setores, comandados pelos senadores José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL) e o deputado Jader Barbalho (PA).

A paz acabou celebrada no segundo mandato. De fato, a convivência com o PMDB se tornou mais fluida no Congresso desde então, a ponto de Michel Temer patrocinar o acordo com o PT em setembro deste ano.

Apesar dessa aproximação, o convívio foi sempre distante e formal.

JUNHO, O MÊS DA DEFINIÇÃO

O rito e a prudência política rezam que a composição da chapa só pode vir após a convenção nacional peemedebista, onde a correlação interna de forças pode se configurar diferente da atual. Por meio de comunicado divulgado nesta sexta, o líder do PMDB na Câmara lembrou essa questão.

Henrique Eduardo Alves afirmou que a declaração do presidente "não bate à porta do PMDB" e fica nos "imprevisíveis caminhos que levarão à eleição presidencial".

"É o debate, é a decisão democrática e soberana da convenção nacional que escolherá, se for aprovada a aliança, o seu único candidato à vice-presidência da República. Essa prerrogativa, esse direito, por favor, ninguém tente restringir. Em respeito ao PMDB", sublinhou o peemedebista, cobrando reciprocidade do PT.

Um outro auxiliar do presidente Lula demonstrou concordância: "Fará a vice quem trouxer a maior parte do partido e quem tiver a aclamada afinidade com a candidata".

"A vice não pode ser definida sete meses antes da convenção. E se muda a correlação de forças?", indagou a fonte.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG