Fotos mostram diplomacia do jazz durante Guerra Fria

O Departamento de Estado americano usou Duke Ellington, Louis Amstrong, Miles Davis e outros ícones do jazz como embaixadores culturais com fins políticos durante a Guerra Fria, conforme evidencia uma exposição de fotos em Tel Aviv.

EFE |

Tratam-se de 45 fotografias que exemplificam os peculiares e até pouco atrás desconhecidos esforços diplomáticos empreendidos em 25 países durante um quarto de século pelos astros da música americana.

Intitulada "America's Jazz Ambassadors Embrace the World" ("Os embaixadores americanos do jazz percorrem o mundo", em tradução livre), a exibição é fiel reflexo da estratégia de Washington de recorrer às figuras do jazz para cativar seus inimigos de meados dos anos 50 até fins dos 70.

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Duke Ellington e Paul Gonsalves fumam no Iraque, em 1963

Tal período inclui eventos históricos como a Crise dos Mísseis em Cuba (1962), a invasão soviética da Tchecoslováquia (1968) e a Guerra do Vietnã (1959-1975). Alguns deles custaram a Washington tensões com Moscou e, outros, o descrédito em boa parte do mundo.

Para remediar a situação, a diplomacia americana decidiu enviar os gigantes do jazz aos quatro pontos cardeais que então contavam em termos de sedução ideológica: o Islã, a América Latina, a África Subsaariana e o bloco soviético.

O objetivo era apresentar o jazz como a face amável da cultura americana e como sinônimo de liberdade. A exposição apresenta diversas fotos históricas dos personagens retratados e o contexto diplomático de cada situação.

Entre as imagens, há cenas como a de Louis Amstrong jogando pebolim com Kwame Nkrumah - pai do pan-africanismo e da independência de Gana -, tocando trompete sobre um camelo nas pirâmides de Giza e rodeado de crianças em uma escola do Cairo.

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Louis Armstrong no Cairo, Egito, em 1961

Em outras, Dizzy Gillespie dirige uma motocicleta nas ruas de Zagreb, na antiga Iugoslávia do ditador Tito, e utiliza as notas de seu trompete para estimular a dança de uma cobra em Karachi, no Paquistão.

A exposição também mostra o pianista Dave Brubeck fazendo um show em uma gélida Varsóvia ou aterrissando no aeroporto de uma calorosa Bagdá, por onde Duke Ellington também passou na mesma campanha e onde, além de tocar piano, fumou pela primeira vez um cachimbo d'água.

Ellington também viajou para Adis-Abeba para se reunir com o imperador Halie Selassie e a Dacar para ser condecorado com todas as honras por Leopoldo Sedar Senghor, pai da independência senegalesa e criador do conceito humanístico de "negritude". Já Miles Davis aparece na exposição com sua banda encantando o público de Belgrado.

Mas o grande destaque é uma foto na qual Benny Goodman cumprimenta Nikita Khrushchov quando ainda estava longe o reatamento diplomático entre Moscou e Washington.

Nada era por acaso. Se para as viagens à África Negra se escolhiam músicos afro-americanos, para as visitas à antiga União Soviética se preferia brancos como Goodman, que interpretava jazz mas também música clássica europeia, muito apreciada em Moscou.

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Benny Goodman toca para o público na União Soviética, em 1962

A política do Departamento de Estado de fazer amigos através da música concluiu antes do início da década de 80 e devido à oposição republicana a gastar o dinheiro do contribuinte em empresas culturais e em um gênero como o jazz.

Para o organizador da exposição, Doron Polak, "foi um grande êxito. A diplomacia do jazz conseguiu que a cultura americana se espalhasse pelo mundo como algo de todos. Para melhorar a imagem dos Estados Unidos não havia música melhor para se escolher".

"Podia ter-se optado pelo country, mas é uma música local demais, muito pouco universalista", disse Polak em declarações à Agência Efe. Segundo ele, "foi uma iniciativa para utilizar a arte com fins políticos e de propaganda".

Ele lembrou, no entanto, que "a utilização da arte para esses fins sempre existiu e continuará existindo".

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