Fim de ano, momento de olhar para dentro

Fim de ano, momento de olhar para dentro Por Giuliana Reginatto São Paulo, 25 (AE) - Comprou presentes para a família inteira? Quero ver você não chorar, não olhar para trás, nem se arrepender do que faz quando a fatura do cartão de crédito chegar. Enfrentou fila nos shoppings, ficou preso no trânsito e até encarou horas extras no trabalho para desfrutar das coletivas? Quero ver o amor vencer, e se a dor nascer, você resistir e sorrir para todos os convidados na ceia de Natal.

Agência Estado |

Se você pode ser assim, tão enorme assim, a ponto de não se culpar pelas promessas não cumpridas em 2008, é provável que tenha escapado do estresse de fim de ano, fenômeno comum no País.

De acordo com uma pesquisa aplicada pelo Internacional Stress Management Association - Brasil (ISMA-BR) a 678 pessoas, todas com idades entre 25 e 55 anos, dezembro é o mais estressante dos meses. O desgaste aumenta em até 75% durante as últimas semanas do ano na opinião de 80% dos participantes. Entre eles, 25% afirmam que as despesas adicionais com presentinhos e confraternizações são as principais responsáveis por tanta tensão.

"Em dezembro há uma sobrecarga de tarefas, no trabalho e na vida social. É comum gastar muito dinheiro e tempo com festividades. Por causa dos compromissos, as pessoas dormem menos e cometem exageros alimentares, ingerindo mais gordura e álcool. Não é de se estranhar que tudo isso culmine em sintomas típicos dos quadros de estresse e ansiedade, como as dores musculares", diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente do ISMA (www.ismabrasil.com.br).

Na opinião da psicóloga Cristiane Maluhy Gebara, uma das coordenadoras do Centro Psicológico de controle do Estresse de São Paulo - unidade Vila Olímpia (www.estresse.pisq.com.br), em 2008 a tensão de fim de ano ganhou um componente extra. "Só se fala na crise financeira. Essa insegurança é um fator importante de estresse neste momento, quando as empresas estão fazendo o balanço deste ano e programando o próximo. Diante de tantas demissões é difícil não pensar naquilo que pode vir após as férias coletivas", diz.

À tensão desencadeada pelo contexto natalino - com suas lojas lotadas, trânsito caótico e orçamento estourado - soma-se a fragilidade emocional típica da época. "Alguns fatores estressores são internos, como o sentimento de culpa pelos projetos que fracassaram e a autocobrança ao traçar metas para o próximo ano. As pessoas ficam mais emotivas, cada uma faz uma espécie de balancete pessoal, é como se o fim do ano fosse um marco, uma régua. Perceber que muitos planos poderão ser executados em um outro calendário ajuda a lidar com essa tensão", diz Cristiane.

Na opinião da gerente comercial Camila Zanluchi, 28, o fator mais estressante do Natal é o clima obrigatório de noite feliz. "As pessoas se tornam mais hipócritas nesse dias, é como se tivessem a necessidade de quitar suas ‘dívidas emocionais’. Tem gente que não olha para você o ano todo e quando dezembro chega manda um cartão qualquer, com um feliz Natal e uma assinatura , como se assim pudesse ficar em paz com sua espiritualidade", reclama.

As convenções sociais em torno do espírito natalino também atormentam o técnico em segurança da informação Roberto Perez, 22. "Acho desnecessário mostrar felicidade em uma data comercial como o Natal, por isso não costumo agir como todo mundo: ir de casa em casa trocando presentes e desejando boas festas. Evito praias lotadas e o trânsito, pois isso realmente me deixa muito estressado", conta ele. "Eu também já não tenho paciência para o especial do Roberto Carlos, para ver a Simone cantando aquela música do John Lennon (Happy Xmas - War Is Over) e para os milenares filmes religiosos da TV", completa.

A festividade do fim de ano, apesar de estimular nervos à flor da pele, também tem seus defensores. Doutor em psicologia e coordenador do Departamento de Psicologia do Hospital Santa Paula, Luiz Gonzaga Leite ressalta a importância dos rituais. "A sociedade se tornou tão pragmática que está eliminando seus ritos de passagem. Eles, em geral, celebram uma possibilidade de renovação. No caso do Natal, todos entram em uma atmosfera mística, acreditam que as energias serão renovadas quando 2009 vier. São essas fantasias e sonhos que impulsionam as pessoas."

Na opinião de Leite, a rejeição para com o Natal reflete uma resistência das pessoas na depuração de suas emoções. "Essa época evoca o lado mais frágil do ser humano, expõe a sua parte criança. Entrar em contato com a própria essência e deixar o ser vir à tona não é tão fácil ou confortável para uma sociedade orientada pelo ter. A pessoa tem medo de estar consigo", analisa.

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