Filmes de baixo orçamento são reunidos em festival em São Paulo

É possível fazer um filme com apenas R$ 250? A segunda edição da mostra Cinema de Bordas, em cartaz em São Paulo até domingo, prova que sim, é possível. Esse é o orçamento da produção mais barata do festival, intitulada Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado, do gaúcho Felipe Guerra. A programação tem um total de treze títulos, entre curtas e longa-metragens. Todos têm um ponto em comum: foram feitos com pouco - às vezes, quase nenhum - dinheiro.

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Divulgação
Cena do filme "Gato", de Joel Caetano

"Esses filmes são verdadeiros 'fotogramas do Brasil'. Eles trazem diferentes sotaques e diferentes experiências da realidade brasileira, de modo muito peculiar e sem preocupações comerciais", defende Bernadette Lyra, uma das curadoras da mostra. "Por serem todos filmes de ficção, eles escancaram as histórias, lendas e modos de vida de diversas regiões do país. E fornecem um mapa deliciosamente variado das experiências de vida e do imaginário de nosso país".

Nesse mundo das bordas do cinema convencional, há figuras como Petter Baiestorf. Ele já dirigiu mais de 100 filmes, como "O Monstro Legume do Espaço" e "Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos". Neste edição do festival, ele exibe o longa "Ninguém Deve Morrer". É um filme de terror, como boa parte dos demais títulos da mostra. "De fato, o cinema de horror não tem tradição na cinematografia brasileira. Talvez porque o horror, juntamente com o sexo e com o humor escrachado, faça parte daquilo que eu chamo de 'trilogia maldita'", explica Bernadette.

O paulistano Joel Caetano é outro diretor presente no festival. Ele exibe "Gato", seu 12º trabalho, com orçamento de R$ 600. "Deste valor, uns R$ 200 foram gastos em maquiagem", conta. Junto com sua mulher, Mariana Zani, e o amigo Danilo Baia, ele formou em 2001 a Recurso Zero Produções. Da produtora saíram títulos como "Junho Sangrento" e "O Assassinato da Mulher Mental". "Minhas maiores influências são filmes de terror e ficção, e também quadrinhos", diz Joel. E o dinheiro para fazer os filmes? "Geralmente sai do meu bolso mesmo", ri.

Segundo ele, atualmente existe um mercado paralelo de cinema no Brasil. "São pessoas que não querem ir pelo lado convencional, não querem ficar esperando lei de incentivo", avalia. Na falta de um circuito comercial de exibição, ele mostra seu trabalho em mostras - ele já ganhou prêmios em eventos como o Festival Curta Fantástico - e também na internet. Se houver patrocínio, suas produções também podem um dia ser lançadas em DVD. "Por enquanto, eu vou colocando no You Tube", explica.

Seria possível considerar esse cinema de bordas um movimento, como foi o cinema marginal de Rogério Sganzerla e Julio Bressane nos anos 60 e 70? Joel acredita que não. "Não sei como isso tudo será visto no futuro, mas acredito que não dá para comparar as duas coisas. A praia é outra", avalia. Bernadette Lyra concorda. "O cinema de bordas não é um movimento de realizadores. É um conceito criado e aplicado por um grupo de estudos, que se dedica a recolher, mapear e estudar esse verdadeiro fenômeno que ocorre paralelamente ao 'cinema oficial'", conclui.

Mostra Cinema de Bordas. Até domingo (25/04). Grátis. Sala Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149, Paraíso). Informações: 011 2168 1776. Programação completa: http://www.itaucultural.org.br .

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