VENEZA ¿ Parte do elenco de Birdwatchers - La terra degli uomini rossi, produção ítalo-brasileira que conta com participação do ator Matheus Nachtergaele e de mais de 200 índios brasileiros guarani-kaiowà, foi às lágrimas nesta segunda-feira durante a coletiva de imprensa para a apresentação do filme que concorre ao Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza.

O diretor Marco Bechis e a italiana Chiara Caselli
ao lado de duas índias do elenco / Getty Images

As lágrimas e a comoção vieram sobretudo de uma das índias protagonistas, Eliane Juca da Silva, que desabafou: "a minha presença aqui é uma grande esperança".

"Não quero julgá-los, mas não temos mais floresta e precisamos caçar e pescar e não há mais nada, não há mais rios, não há mais florestas. E não há nem mesmo oportunidade para os jovens. Somos seres humanos como vocês, utilizamos as mesmas roupas que vocês. Nossos chefes religiosos não podem nem mesmo pregar. Os fazendeiros nos julgam invasores, mas nós queremos apenas nossa terra", afirmou Eliane.

Co-produção brasileira

"Birdwatchers" é o segundo filme "brasileiro" na disputa pelo Leão de Ouro em Veneza. Tanto ele quanto "Plastic City" são co-produções da brasileira Gullane Filmes com parceiros internacionais. No caso de "Birdwatchers", a maior parte dos recursos é proveniente da Itália, apesar do longa ser falado em sua maioria em guarani e da equipe e do elenco serem essencialmente do Brasil.

Rodado no Mato Grosso do Sul, o filme narra o embate violento entre os fazendeiros e os índios que reclamam suas terras. Os primeiros possuem campos de cultivo de plantas transgênicas e passam as noites na companhia dos turistas que vão à região para observar os pássaros. Enquanto isso, nos limites de suas propriedades, os índios vivem todos os problemas de uma integração aparentemente impossível. Problemas estes que levam muitos dos jovens ao suicídio.

Índios de "Birdwatchers" dividem vida na
tribo com trabalho nas lavouras / Divulgação

O índio Ambrosio Vilhalva, líder de uma reivindicação por terra e verdadeiro inspirador do filme do diretor italiano Marco Bechis, denunciou que "o índio não tem nenhum direito e, quando descobre isso, é levado a se suicidar".

"Conhecia um garoto de 19 anos que queria se matar porque esperava um filho e não sabia como fazer. Eu lhe dizia para combater, para esperar, mas ele no final acabou se suicidando mesmo", relatou Vilhalva.

Por sua vez, o diretor Bechis, ao final da aplaudida projeção de hoje para a imprensa, afirmou que "não houve a necessidade de inventar coisas, bastou encontrar Ambrosio Vilhalva e falar de sua história".

No entanto, o diretor italiano ¿ que também realizou "Garage Olimpo" (1999), sobre as torturas praticadas pela ditadura argentina ¿ disse não acreditar na melhora da situação dos indígenas no país. "Sou cético que alguma coisa possa realmente mudar no Brasil para os índios. A potência econômica da agricultura é muito forte. Bastaria dar somente 20% das florestas aos índios para mudar as coisas. Mas acredito que isso não irá ocorrer jamais", concluiu.

Apesar disso, afirmou que o presidente Lula não é o culpado por esta situação. "Lula é um homem capaz de ótimas intenções, mas com relação aos índios se encontra diante da forte estrutura econômica dos fazendeiros e seguramente tem dificuldades para levar adiante suas idéias", disse. "No meu filme procurei apenas estar no meio, evitando levar o espectador a um lado ou ao outro. Era o melhor modo para contar esta situação tão complicada e fazer o espectador entender as razões de um lado e do outro."

Competição decepciona

Nesta segunda-feira, a Mostra exibiu dois outros filmes em competição. Um deles é "Milk", dos turcos Semih Kaplanoglu e Melih Selçuk, que conta a vida de Yusuf, um jovem amante da poesia que vive com sua mãe viúva e a ajuda a produzir queijos no campo. Neste segundo filme de uma trilogia que começou em 2007 com "Yumurta" ("Ovo"), Kaplanoglu mostra a transição da infância para a vida adulta.

"Queria mostrar a falta de saídas para os jovens. Sua confusão e sua desorientação", comentou Kaplanoglu. Nessa passagem, Yusuf deve abandonar seu sonho de ser poeta e sacrificar o amor por sua mãe para terminar trabalhando em uma mina.

O norte-americano "Vegas: Based on a True Story", de Amir Naderi, mostra a decadência de uma família pobre de Las Vegas, convencida de que possui um tesouro enterrado em seu jardim. Representante do cinema independente americano, o diretor de origem iraniana afirmou em entrevista coletiva que o filme foi financiado graças ao dinheiro que oito jogadores viciados emprestaram a ele mediante um peculiar sistema. "Quando ganhavam, eu filmava no dia seguinte, mas se perdiam, não, porque não tinha dinheiro", confessou Naderi, que disse que esse foi o motivo de o filme, apesar de ser muito simples, demorar seis meses para ficar pronto.

Treze dos 21 filmes na competição pelos prêmios que serão entregues no dia 6 de setembro pelo presidente do Júri, o cineasta alemão Wim Wenders, já foram exibidos. Poucos agradaram nessa 65ª edição, que até o momento se mostrou decepcionante, de acordo com a imprensa. Ontem, a animação "Ponyo on the Cliff by the Sea", do japonês Hayao Miyazaki, recebeu muitos elogios, tanto dos críticos como do grande público, cujas impressões foram reunidas pela revista do festival, a Ciak.

* Com informações da EFE e France Presse

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