Filme sobre Lula apresenta só um lado do personagem

SÃO PAULO - A certa altura de Lula, o Filho do Brasil, o sindicalista Luiz Inácio é informado da morte do pai, o monstro Aristides. Lula recebe a notícia com aparente indiferença e comenta: Não tenho nada do meu pai. Mas logo se corrige e diz que, além de ter herdado de dona Lindu, sua mãe, tudo que tem de bom, herdou do pai o que tem de mau.

Mauricio Stycer, iG São Paulo |

É uma cena breve, mas fundamental para refletir sobre o abismo entre o potencial da história de vida de Luiz Inácio Lula da Silva e o filme que Fabio Barreto foi capaz de realizar.

"Lula, o Filho do Brasil" está longe de ser um filme horroroso, como alguém, exaltado, escreveu. Mas é, claramente, um filme limitado, incapaz de dar conta da complexidade da trajetória de Lula. Generoso ao sublinhar as qualidades do protagonista, tem dificuldade em enxergar os desvios de rota, as derrapadas e escorregadas que Lula, como qualquer ser humano, deu ao longo de sua trajetória.

Não bastasse abrir o flanco para ser classificado como uma hagiografia (a biografia de um santo), "Lula, o Filho do Brasil" também hesita naquele que parece ser o instante decisivo na trajetória do personagem principal, a saber: como o sindicalista sem grande envolvimento com a causa operária virou Lula, o líder que iria parar o ABC e abalar as estruturas da ditadura militar?

Foi por causa da morte da primeira mulher, Maria de Lourdes, durante o parto do filho, que também faleceu? Ou foi uma reação à prisão e tortura que seu irmão mais velho, Frei Chico (ou Ziza, como a família o chamava), sofreu ao ser preso pelo regime militar?

Para quem conhece bem a trajetória de Lula, o segundo fator teve um peso muito mais decisivo que o primeiro, mas "Lula, o Filho do Brasil" sugere, em sua hesitação, que o mergulho na atividade sindical é uma espécie de terapia de superação do luto.

Um personagem fundamental neste processo é o sindicalista Paulo Vidal, tratado no filme como Feitosa. É Vidal que, num esforço de renovação do sindicato, atrai Lula, e não seu irmão, para a direção do sindicato. Vidal rejeita Frei Chico por conta de sua militância política e vê com bons olhos a disposição do "alienado" Lula.

No filme, Feitosa é retratado como um sindicalista com um pé na renovação, mas outro na velha guarda, quase um pelego, arrivista, desinteressado das bases e embasbacado com a proximidade que alcança com o poder. Naturalmente, Vidal rejeitou a forma como é retratado nas telas.

É preciso dar um desconto à cobrança obsessiva daqueles que reclamam que Barreto "não conta a história como de fato aconteceu". Não se deve esperar de um filme de caráter biográfico o respeito reverencial, tintim por tintim, à história. Liberdades são necessárias para dar sentido dramático a uma narrativa com restrições de orçamento e uma duração que não pode ultrapassar certos limites.

"Lula, o Filho do Brasil" reescreve vários episódios da vida do protagonista, altera, simplifica, enxuga e funde diferentes histórias, mas aparentemente não altera o sentido fundamental de boa parte dos episódios que pretende narrar.

A presença exagerada de dona Lindu no filme reforça o tom melodramático da história, o que explica a irritação de políticos da oposição e de parte da mídia, que enxergam no longa-metragem uma peça de propaganda destinada a ajudar o governo na campanha eleitoral de 2010.

Dona Lindu é o esteio que assegura alguma estrutura à família Silva. Uma verdadeira mãe coragem, como a personagem da peça de Bertolt Brecht. À frente dos seus oito filhos, Dona Lindu é, de fato, uma personagem maravilhosa, mas o filme equivoca-se ao tentar sugerir que foi ela que, com seus conselhos, transformou Lula.

A mãe diz a Lula num momento de dificuldade do filho: "Levanta a cabeça e teima. É só teimar". E dá outras dicas deste tipo, meio óbvias, que toda mãe dá a um filho. Certamente, é uma figura central na formação do caráter do presidente, mas Fabio Barreto pesa a mão ao sugerir que Lula agiu movido pelas recomendações de dona Lindu.

Mão pesada, aliás, é uma marca do cinema do filho caçula de Luiz Carlos Barreto (vide "Luzia Homem", "O Quatrilho", "Bela Donna" etc). Mas, é preciso dizer que, em "Lula, o Filho do Brasil", o cineasta foi muito bem sucedido na direção de elenco. Tanto os veteranos, como Gloria Pires (dona Lindu) e Milhem Cortaz (Aristides), quanto os mais novos, como Rui Ricardo Dias (Lula) dão show no filme.

Por fim, cabe uma discussão sobre a propriedade de realizar uma superprodução sobre a história de um político no auge de sua carreira, no cargo de presidente da República. É impossível receber um filme desses com isenção. O clã Barreto sabe disso e não pode reclamar das reações extremadas que "Lula, o Filho do Brasil" está provocando, muito antes, mesmo, de sua estreia comercial. Talvez, daqui a dez anos, sejamos capazes de enxergar o filme como um filme, como Ghandi foi visto. Hoje não é possível.

Assista ao trailer do filme:

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