Filme português mostra perfil sensível de uma favela do Rio de Janeiro

LISBOA ¿ Dois irmãos portugueses, Mario e Pedro Patrocinio, se arriscaram a entrar na favela mais perigosa da cidade do Rio de Janeiro e descobriram um surpreendente universo de sensibilidade e força que plasmaram em um documentário, cuja estreia está prevista para janeiro de 2010.

EFE |

"As pessoas têm uma imagem estereotipada do que é uma favela, têm medo de tudo o que vem de lá e nossa intenção é justamente eliminar os tópicos e deixar que vejam a realidade", disse à Agência Efe o cineasta Mario Patrocinio.

Reprodução

Mario e Pedro Patrocinio seguem quatro personagens em "Complexo - Universo Paralelo"

Mario e Pedro viviam no Brasil desde 2003 e o "sinal verde" para entrar na favela do Complexo do Alemão surgiu por causalidade em 2004, com a ajuda de um amigo que propôs a eles que fizessem um videoclipe com um músico de rap local.

"Nesse momento, não sabíamos quem era MC Playboy (nome do rapper), nem o que era o Complexo do Alemão, lembra Mario, que admite que se assustou com o que leu na imprensa sobre o lugar e entrou na favela pela primeira vez com o "coração disparado".

A fama de região violenta e perigosa se forjou no Complexo do Alemão, especialmente após o assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002, quando foi capturado e cruelmente torturado como represália a seu trabalho de investigação sobre os bailes "funk". Os irmãos Patrocinio, após seu trabalho com o rapper, carregados apenas de coragem e da ingenuidade de estrangeiros, decidiram voltar à favela, desta vez sozinhos.

Em dezembro de 2005, trocaram então o tradicional Natal português por um passeio até o que eles chamaram de "universo paralelo", que lhes mostrou um mundo muito além do qual é o "bom senso" sobre a vida nas favelas.

"Uma vez dentro, sentimos que havia ali muitas coisas para serem contadas, mas, sobretudo, muito que aprender", destaca Mario, que não se cansa de enfatizar como os moradores da favela o receberam e trataram bem durante seu trabalho.

De fato, o desafio número um do projeto é estrear o filme, cujo título é "Complexo - Universo Paralelo", na própria favela, que contará também com uma exposição de fotografias e um show.

"Descobrimos ali pessoas humildes que nos ajudaram muito e que sempre estiveram disponíveis para nos ensinar. Cada conversa era uma aprendizagem", afirma Mario, para quem esta experiência já foi mais importante que fazer o filme em si.

O documentário viaja em torno de quatro personagens centrais ¿ uma mãe de oito filhos, o presidente da associação de moradores há 35 anos, o rapper MC Playboy e o próprio tráfico. A droga está representada, segundo os diretores, pelas declarações de diferentes pessoas de alguma maneira envolvidas com o comércio ilegal.

A mãe de oito filhos, Dona Célia, além de personagem foi também fonte de inspiração e incentivo para os cineastas, que realizaram o filme sem patrocinadores e tiveram que ouvir a palavra "impossível" várias vezes.

"Dona Célia nos demonstrou, no dia a dia, que vale a pena batalhar pelas coisas nas quais acreditamos e, assim, ela terminou por ser a inspiração para o próprio filme", lembram os irmãos Patrocinio.

"O que pensávamos é que se ela consegue sustentar e, sobretudo, criar oito filhos, quem somos nós para não conseguir fazer um filme?", declara Mario, ao enfatizar que no mundo das favelas há também muitos "vencedores".

As cenas só terminaram de ser gravadas em 2007, com a ajuda de amigos, alguns equipamentos emprestados e inclusive a impossibilidade de contratar profissionais locais pelo preconceito que se tem da região.

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