Filme brasileiro retrata ligação entre ditaduras latino-americanas

SÃO PAULO, 22 ABR (ANSA), por Bruna Escaleira - A Operação Condor, esquema de cooperação entre as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e Brasil) na década de 1970 para a repressão de opositores dos regimes militares, foi retratada pelo cineasta brasileiro Roberto Mader em um documentário que resume em 106 minutos quase dez anos de pesquisa sobre este capítulo ainda obscuro da história da região.

Agência Ansa |

"Condor", que entrará em circuito nacional a partir do dia 1º de maio, foi premiado no Festival do Rio como melhor documentário de longa-metragem e no Festival de Cinema de Gramado com o Prêmio Especial do Júri em 2007.

Em entrevista à ANSA, Mader explicou detalhes sobre a investigação, que começou em 1998 em Londres, com a liberação de informações após a prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet na capital britânica. A partir daí, o cineasta percorreu vários países, reunindo documentos e entrevistando vítimas da Operação Condor, militares envolvidos no esquema, além de pesquisadores e jornalistas. 

Essa operação militar foi responsável pela morte de cerca de 30 mil pessoas, além de prender outras 400 mil e forçar ao exílio aproximadamente 4 milhões de opositores das ditaduras. Grande parte desses crimes continua impune devido à dificuldade de acesso aos arquivos militares e às leis de anistia criadas em seu benefício.

Na pré-estréia de "Condor", realizada na última quinta-feira na Cinemateca Brasileira em São Paulo, o diretor disse esperar que o filme seja "uma voz que atinja os jovens", que não conhecem muito essa parte da história da região, devido à falta de divulgação de informações. Mader também pretende que a obra aumente a "pressão para que mais arquivos sejam abertos".

Mader também afirmou que o Brasil foi um dos países onde houve mais barreiras para a pesquisa devido à "dificuldade que ainda há no acesso a documentos de arquivos militares", que são liberados "de forma 'penteada', ou seja, muitas das informações que deveriam constar são retiradas".

"Os arquivos só são abertos porque as pessoas exigem esse direito. Quero usar este filme para levantar esse debate", declarou o diretor à ANSA.

Segundo Mader, o papel do Brasil na execução de crimes no esquema de cooperação entre os regimes ditatoriais não foi tão efetivo quanto do Chile ou da Argentina, por exemplo, mas "a conivência é uma responsabilidade tão grande quanto a participação ativa". 

"O Brasil claramente sabia do que estava se passando e pouco fez, nada denunciou", acrescentou o diretor.

O documentário também destaca o papel da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA) na Operação Condor, inserido no contexto da Guerra Fria, quando uma das prioridades do governo dos Estados Unidos era reprimir movimentos de esquerda considerados uma ameaça à hegemonia capitalista.

Segundo Mader, esses grupos esquerdistas que, muitas vezes, recorriam a um armamento precário, eram muito pequenos e fracos em relação aos exércitos dos governos militares e "é ridículo admitir a hipótese de que representassem uma ameaça".

No mesmo dia da pré-estréia do documentário na capital paulista, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara dos Deputados brasileira reuniu-se em audiência pública para divulgar documentos sobre a atuação de agentes norte-americanos na Operação Condor no Brasil, trazidos dos Estados Unidos pelo presidente da Organização Não Governamental Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke. Na ocasião, o presidente de CDH, o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), criticou o governo brasileiro por nunca ter buscado essas informações.

Devido à falta de dados, é difícil identificar quais casos de pessoas presas, seqüestradas, mortas ou desaparecidas na década de 1970 realmente fizeram parte da operação, por isso, Mader decidiu construir o documentário a partir de "casos comprovadamente Condor", como o da uruguaia Victória Larraberti, adotada por um casal chileno após ser seqüestrada, ao lado de seu irmão, pelos militares, que haviam assassinado seus pais na Argentina.

A pesquisa para a produção do filme também englobou outros casos, como o do jornalista argentino Norberto Armando Habeger, militante da organização de guerrilha Montoneros em seu país, que foi seqüestrado pelos militares no aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro e nunca mais foi visto. "Cheguei a falar com a viúva e o filho de Habeger", explicou Mader. "Há provas concretas de que (seu desaparecimento) foi um crime relacionado à Operação Condor", acrescetou o diretor, explicando que, no entanto, o caso "não entrou na edição final".

"A grande questão do filme não é a pesquisa jornalística em torno da Operação Condor. A força do filme está nos depoimentos, que mostram as conseqüências da tragédia humana por trás da operação", declarou.

"Como diz o escritor John Dinges (autor de "Os anos Condor", ndr) no filme, o que está acontecendo no Cone Sul em relação aos crimes dos militares na década de 1970, esse processo de busca por justiça, apesar das leis de impunidade e anistia que tentaram fazer com que esses crimes não fossem punidos, é uma lição muito interessante que vai fazer com que qualquer megalomaníaco como o Pinochet pense duas vezes antes de cometer determinados crimes", concluiu o diretor. (ANSA)

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