Todo maloqueiro tem em si motivação para ser Adolf Hitler ou Gandhi, canta o rapper E.M.

I.C.I.D.A. enquanto o que se vê na tela é uma panorâmica do Capão Redondo, um dos bairros mais famosos e, ao mesmo tempo, esquecidos de São Paulo. O filme em questão é "Bróder", que faz sua première mundial hoje no Festival de Berlim. Primeiro longa do diretor Jeferson De, representa o Brasil na Panorama, uma das mais prestigiadas mostras competitivas do festival que termina sábado.

"Que estranho saber que meu filme vai ser exibido, que o festival já começou e eu ainda não terminei", comentou De, enquanto "apagava" o Hitler de sua história, em um estúdio da gravadora Trama em São Paulo. "Como o filme vai passar na Alemanha, acho que não vai pegar bem falar em Hitler", afirma. "Berlim vai mostrar o preto que voa e o preto que não voa, que usa bilhete único." Assim ele comentou a participação de outro filme do Brasil, "Besouro" (o "do preto que voa", de Daniel Tikhomiroff), e do seu "Bróder" na mesma seção.

O negro de "Bróder" não voa, mas continua tendo de se desdobrar para conseguir sair das três "opções profissionais" para se incluir no mercado de trabalho: "Morador da perifa (periferia) tem o direito de virar jogador de futebol ou bandido. Quem não ‘opta’ por nenhuma dessas rala muito para pagar o aluguel no fim do mês", sentencia De.

Orçado em R$ 3 milhões, "Bróder" é uma produção da Barraco Forte (sua produtora) e da Glaz Enternaiment, e conta ainda com a Columbia e a Globo Filmes. "Queremos lançar tanto em grandes salas quanto nas comunidades." Conta a história de três amigos de infância, Macu (a semelhança com Macunaíma não é coincidência), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane).

Jaiminho virou jogador de futebol. Pibe é corretor de imóveis. Macu (Caio Blat) foi seduzido pelo crime e "alugou" sua casa para uma gangue de traficantes que pretende sequestrar uma criança. Tudo vai bem até que a gangue decide sequestrar Jaiminho.

Dogma Feijoada

Mais que botar seu filme na fita, De conclui com Bróder um projeto que nasceu há 13 anos, quando criou o Dogma Feijoada - fruto dos estudos que ele realizou em 1997 e 1998 sobre diretores cinematográficos dos negros brasileiros, para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Em vez de exclusivista, esse ‘dogma’ é universal e não prevê tratar somente de questões negras, mas dar maior visibilidade aos negros e tratar com naturalidade (não com clichês) a cultura negra brasileira no cinema. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo .

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