Filmado no Mato Grosso do Sul, ¿Terra Vermelha¿ traz luz à realidade indígena

SÃO PAULO ¿ Se a questão indígena não ganha muito espaço nos meios de comunicação, nas telas de cinema, então, é abordada raramente. A produção ítalo-brasileira ¿Terra Vermelha ¿ Birdwatchers¿, que chega nesta sexta-feira (28) nas salas do País, procura reverter esse quadro, colocando o assunto em pauta nos cadernos culturais e levantando o debate sobre o índio brasileiro na imprensa mundial ¿ o filme foi um dos mais comentados no Festival de Veneza deste ano, apesar de não ter ganhado nenhum prêmio.

Marco Tomazzoni |

Acordo Ortográfico Radicado na Itália desde muito cedo, o diretor Marco Bechis tem uma forte ligação com a América Latina: nasceu no Chile, morou na infância em São Paulo e migrou para a Argentina na juventude, onde fez três de seus longas-metragens, entre eles o premiado Garage Olimpo (1999), que ganha estreia conjunta com Terra Vermelha. A decisão de filmar os guarani-kaiowá, em Mato Grosso do Sul, surgiu depois de uma viagem pelo Brasil, que tinha como destino inicial um projeto na Amazônia e, por instinto, desaguou na cidade de Dourados. Ou, como afirmam algumas lideranças da região, não foi você que veio até nós, nós que trouxemos você para cá.

Abrísio da Silva Pedro, protagonista
de "Terra Vermelha" / Divulgação

Em entrevista ao iG , Bechis contou que, em 2004, foi do Rio de Janeiro ao Mato Grosso do Sul de ônibus e logo entrou em contato com o cacique Ambrósio Vilhalva, que há quatro anos ocupava com um grupo de indígenas uma fazenda na região, esperando a desapropriação ser autorizada pela justiça. O encontro rendeu tanto que Ambrósio interpreta papel similar em Terra Vermelha, em um roteiro com os dois pés fincados na realidade.

Na história, uma onda de suicídios entre os guarani-kaiowá ¿ que possui taxa 40 vezes maior do que a média brasileira ¿ faz com que eles procurem o local onde a comunidade nasceu, hoje uma fazenda de soja controlada pelo personagem de Leonardo Medeiros. O conflito por terra é um dos temas abordados pelo filme, além da vida marginal dos índios, sem trabalho, território e, muitas vezes, sem comida.

Bechis compartilha a opinião de Ambrósio de que o longa cumpre a função de tirar o problema de debaixo do tapete e colocá-lo em cima da mesa, dando visibilidade para uma questão social escondida nas entrelinhas do noticiário brasileiro. Os latino-americanos precisam saber o que acontece, defende o diretor, que se esquiva quanto ao fato da tarefa ter interessado a ele, um italiano. A distância da Itália a São Paulo são 12 horas de voo, não é tão longe assim. Sou apenas mais curioso, sugere.

A experiência de trabalhar com atores não-profissionais ¿ no caso os protagonistas do filme, todos indígenas das aldeias da região ¿ não trouxe problemas à produção, pelo contrário: através de oficinas e projeções, Bechis conta que o elenco aprendeu a linguagem do cinema e a potência dos planos sem falas.

Nunca fiz preparações tradicionais. Acredito na refinação das potencialidades naturais, na habilidade da vida, explica. Para ele, quem teve dificuldades no set foram os veteranos da sétima arte. Os atores profissionais demoraram para entrar na história porque, na verdade, o filme não era para eles. Era um contexto diferente.

A construção das cenas, conforme o roteirista Luiz Bolognesi (Chega de Saudade, O Bicho de Sete Cabeças), seguiu essa mesma lógica. A versão original tinha várias cenas na fazenda, mas elas simplesmente não funcionavam. Por isso decidimos contar a história de dentro para fora. É o mundo pelos olhos dos kaiowá, garante.

Realizado em co-produção com a brasileira Gullane Filmes, Terra Vermelha ganhou recentemente o prêmio de melhor filme da Festival de Cinema de Manaus. A estreia nacional acontece depois de uma bem-sucedida carreira em território italiano, em especial pelas participações das estrelas locais Chiara Caselli e Claudio Santamaría, e em outros países da Europa.

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