Figura mítica do Rio, Profeta Gentileza continua vivo no imaginário popular

São 56 escritos distribuídos pelas pilastras do viaduto do Caju, configurando um estranhíssimo ritual de boas-vindas para quem chega ao Rio de Janeiro pela rodovia Presidente Dutra, pela rodoviária Novo Rio ou pelo aeroporto do Galeão. É certo que um profeta passou por ali, mas as pregações de cunho moral e repressivo se confundem e se misturam com uma curiosa linguagem cheia de símbolos, letras maiúsculas desenhadas em pautas verdes e amarelas, consoantes repetidas (¿AMORRR¿, ¿VIVERRR¿, ¿JESSUSS¿) e mensagens iradas contra o capitalismo, ou melhor, o ¿CAPETALISMO¿.

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

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Imagem do Profeta Gentileza

GENTILEZA GERA GENTILEZA é a frase que inicia vários dos murais, terminados muitas vezes com o aviso DISSE GENTILEZA. A figura mítica do Profeta Gentileza surgiu, paradoxalmente, da tragédia do Gran Circus Norte-Americano. Seis dias após o incêndio, José Datrino abandonou a família e o posto de dono de uma transportadora de cargas, como ele relataria mais tarde: De meio-dia a uma hora foi quando eu recebi o aviso astral de Deus de que no dia seguinte ¿ três confirmações ¿ eu tinha que deixar todos os meus afazeres materiais do mundo para cumprir o espiritual na Terra.

Os cabelos e a barba foram crescendo e se tornando grisalhos, uma túnica branca toda bordada de dizeres do profeta virou figurino constante, e ele passou a perambular entre os carros engarrafados no centro do Rio, de Niterói, São Gonçalo e Baixada Fluminense, depois por diversos estados do país (estão documentadas passagens de Gentileza por Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Amazonas, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, São Paulo, Minas Gerais e Paraná).

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Uma das frases de Gentileza

Um senso estético muito peculiar orientava tudo o que ele produzia com a cabeça, as mãos e o corpo. Os estandartes que carregava pela rua eram enfeitados de flores, bandeiras do Brasil e cataventos coloridos. Os sapatos eram pintados de verde e amarelo e ornados com símbolos e siglas. As mensagens, inscritas em traço sempre minucioso, não raro tornavam-se manifestos: NÃO USEM PROBLEMAS NÃO USEM POBREZA USEM AMORRR GENTILEZA, GENTILEZA É O REMÉDIO DE TODOS OS MALES AMORRR E LIBERDADE, e assim por diante. Os conflitos, tensões e contradições da sociedade carioca (e brasileira) ganhavam representação espelhada na figura louca de um profeta andarilho que era, mais que isso, um artista.

Gentileza morreu em 1996, e em 1997 a Companhia de Limpeza Urbana cobriu os escritos com tinta cinza, numa ação que visava limpar a cidade de pichações. Uma campanha pela reabilitação e recuperação da obra percorreu o Rio daí em diante e gerou até uma canção de protesto de Marisa Monte, "Gentileza" (2000), de versos como apagaram tudo/ pintaram tudo de cinza/ a palavra no muro/ ficou coberta de tinta.

Tidos afinal como bens culturais, os 56 murais de Gentileza foram tombados por decreto do prefeito Luiz Paulo Conde, em 2000. Em 2009, o ator Paulo José interpretou o profeta numa participação especial na novela global Caminho das Índias. A obra do artista que brotou de um circo em chamas foi reunida e analisada no livro UNIVVVERRSSO GENTILEZA, de Leonardo Guelman (Mundo das Ideias, 2009).

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