Figura de Che Guevara ganha vida no cinema com Benicio del Toro

Alicia García de Francisco Cannes (França), 21 mai (EFE).- Ernesto Che Guevara morreu há 40 anos na Bolívia, mas esta noite, no Festival de Cannes, ressuscitou na grande tela em dois filmes exibidos sobre sua vida, dirigidos pelo diretor Steven Soderbergh, nos quais foi interpretado por um impressionante Benicio del Toro.

EFE |

Cada gesto, cada expressão, cada movimento, cada olhar do ator lhe transformam em um Che de carne e osso, em um ser humano comprometido e disposto a perder sua vida para ajudar os outros, embora talvez para fugir de si mesmo.

Essa é a visão que Soderbergh oferece sobre o mito revolucionário do século XX, ao exibir um retrato humano bastante semelhante à realidade, mas com altos e baixos, ao longo de uma história de 4 horas e 28 minutos, que rendeu dois filmes.

Trata-se de um projeto muito arriscado e pessoal de Soderbergh e Benicio del Toro. Ambos passaram anos de pesquisa para levar a figura de Che ao cinema e fazê-lo com a importância que isso representava para eles.

Bem recebidos esta noite em sua estréia em Cannes, "The Argentine " e "Guerrilla" são os títulos dos dois filmes que estrearão em 5 de setembro, no primeiro caso, e em novembro, provavelmente, no segundo.

A primeira parte está centrada na revolução cubana, após seu início, até a tomada de Santa Rosa. Trata-se de uma parte cheia de luta, de ação e de adoração à figura de Che e de Fidel, interpretado com excessivo mimetismo pelo ator mexicano Damián Bichir.

É um filme muito bem rodado, com uma fantástica mistura entre documentário e ficção, com imagens em preto e branco, uma impecável montagem e trilha sonora do espanhol Alberto Iglesias, que acompanha muito sutilmente a narração para fazer-se presente apenas nos momentos importantes.

Che é mostrado como guerrilheiro, mas também como um político carismático, que realizou um famoso discurso diante da Assembléia Geral da ONU, em 1964. Para fazer o link entre esses dois lados do personagem, o diretor utiliza uma entrevista realizada por uma jornalista americana, interpretada por Julia Ormond.

Apenas na entrevista e em outros momentos contados dos dois filmes se escutam diálogos em inglês, já que Soderbergh quis, desde o princípio, que a história fosse contada em seu idioma real, o espanhol, embora ele mesmo não fale nem uma palavra da língua hispânica.

Um espanhol, aliás, que se houve com diferentes sotaques, tanto pela diversidade da nacionalidade dos personagens que rodearam Che, como pela dos atores que participaram da rodagem, incluindo os cubanos Jorge Perugorría e Vladimir Cruz, os espanhóis Unax Ugalde e Elvira Miguez e a colombiana Catalina Sandino.

Pode-se dizer que o filme não mostra nada do que já não se soubesse, porque não se centra tanto na política, como nas relações de Che com os homens (maioria) e mulheres, que estiveram à sua volta durante a revolução cubana.

O segundo filme, "Guerrilla", também se aproxima mais do lado humano do que do político, embora com estrutura narrativa e estilo completamente diferentes.

Destacando a mudança experimentada por Che, o segundo filme se apresenta mais "claustrofóbico", embora seja passado na selva boliviana. O "claustrofóbico" aí se refere ao sentimento do personagem, que se encontra isolado e não consegue apoio nesta nova tentativa de revolução.

Essa parte não consegue manter o ritmo da primeira e acaba ficando pesada, por já se saber que a revolução boliviana será fracassada.

Isso, no entanto, não afeta o nível da interpretação de Del Toro, que continua brilhando acima do resto de um elenco amplo - talvez amplo demais, com papéis curtos que impedem o desenvolvimento dos personagens.

Na segunda parte, alguns dos personagens da primeira se repetem - certas incursões do que passa em Cuba, por exemplo - e são acrescentados o português Joaquim de Almeida, a alemã Franka Potente, o americano Matt Damon, o argentino Gaston Pauls e os espanhóis Jordi Mollá, Carlos Bardem, Eduard Fernández e Oscar Jaenada.

Pode-se dizer, por fim, que a visão de Soderbergh em relação a Che não possui nada de novo, mas apresenta, com muita qualidade, movimentos e ações da vida deste ícone e, sobretudo, de sua morte, da qual pouco se sabe. EFE agf/fb

    Leia tudo sobre: festival de cannes

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG