SÃO PAULO ¿ De um lado, a tradição de Gramado. Do outro, a opulência de Paulínia. Sem contar os festivais de Brasília, Recife e outros tantos eventos no calendário cultural brasileiro, as principais vitrines do cinema nacional estão concentradas atualmente no interior de São Paulo e na serra gaúcha, em um cabo de guerra para conseguir atrair os melhores filmes para a mostra competitiva.

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José Joffily, vencedor de Paulínia 2009

É notória, no entanto, a força que Paulínia vem ganhando no meio em apenas dois anos de estrada. A segunda edição da festa, encerrada ontem com show dos Paralamas do Sucesso, ostentou orçamento de R$ 5 milhões ¿ cifra generosa para qualquer jornada cultural ¿ e nomes de peso entre os selecionados, como os dois representantes brasileiros no último Festival de Cannes: "À Deriva", de Heitor Dahlia, exibido na abertura, e "No Meu Lugar", de Eduardo Valente.

Além disso, teve a honra de exibir "Tempos de Paz", novo trabalho de Daniel Filho, o "midas" do cinema nacional, e "Moscou", muito aguardado documentário de Eduardo Coutinho. Mas a maior prova de que algo está diferente no horizonte é a presença de "Antes que o Mundo Acabe" na competição. Primeiro longa-metragem da gaúcha Anna Luiza Azevedo, o filme foi produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, patrimônio da cena gaúcha. Ao invés de estreá-lo em Gramado, como faz a maioria absoluta dos cineastas locais, a diretora preferiu levá-lo para além da fronteira sulista.

A edição deste ano do festival gaúcho, contudo, ainda é fiel à tradição. Paulo Nascimento ("Em Teu Nome") e Sérgio Silva ("Quase um Tango") garantiram seu lugar entre os seis competidores de longa nacional, o que gerou críticas de que a curadoria ainda privilegia a produção local, apesar da alardeada inscrição recorde de 85 filmes, quase o dobro do ano passado.

Criado na década de 1970, Gramado se firmou rapidamente como janela do cinema brasileiro, não só pela presença constante de estrelas, mas principalmente como forma de afirmação da arte nacional, sufocada pelo regime militar. Arnaldo Jabor, Nelson Pereira dos Santos, Luís Sérgio Person, Walter Hugo Khouri, Bruno Barreto, João Batista de Andrade, Domingos de Oliveira e Carlos Reichenbach são apenas alguns dos nomes premiados na longa história do festival, isso sem contar a lista infindável de atores e atrizes.

O glamour do tapete vermelho, o frio serrano e a tietagem em torno do Palácio dos Festivais atraem anualmente centenas de turistas, tanto que a rede hoteleira fica sempre lotada na época da festa. Contudo, a crise do cinema nacional nos anos 1990, a exigência por filmes inéditos e uma seleção de gosto duvidoso acabaram diminuindo a importância do evento nos últimos anos.

Edison Vara/ PressPhoto

Murilo Salles e Leandra Leal, ganhadores
do Kikito em Gramado 2008

Paulínia, por outro lado, teve ascensão estelar, em especial pelos recursos. Pólo petroquímico, o município repassa para o Fundo de Cultura uma pequena porcentagem da arrecadação de impostos que, mesmo singela, deve representar R$ 15 milhões só em 2009. O dinheiro garantiu que a cidade tenha hoje uma infra-estrutura de ensino e produção cinematográficas altamente profissional, com estúdios e farto banco de dados de figurantes e locações. Através de editais, R$ 9 milhões já foram investidos em 20 longas, como "Jean Charles", "O Menino da Porteira" e o inédito "Salve Geral".

A fartura também se reflete nos prêmios do festival. Os premiados deste ano receberão no total R$ 650 mil em bônus, montante sem precedente no País. Já Gramado instituiu neste ano um Prêmio Especial de Seleção, que remunera os filmes pinçados pela curadoria. O valor dos prêmios será de cerca de R$ 80 mil.

Além do dinheiro, a diferença também fica por conta da estrutura dos festivais. Enquanto Paulínia se restringe ao cinema nacional, dividido em ficção e documentário, Gramado abriu suas portas para a produção latino-americana, procedimento adotado na década de 1990, durante a crise da sétima arte nacional, mas que acabou firmando o festival como um dos mais importantes no continente. Por isso, este ano concorrem, por exemplo, os dois grandes vencedores do Festival de Berlim: "La Teta Asustada", de Claudia Llosa (Peru), e "Gigante", do uruguaio estreante Adrián Biniez.

A presença dos dois, aliás, está relacionada ao impressionante aumento do número de inscritos: os latinos passaram de 12, no ano passado, para 43. Isso sem falar da expansão dos longas (98%) e curtas (80%) nacionais, que acompanha a atual pujança do cinema brasileiro. Um indício alentador, que pode representar o renascimento de Gramado ¿ ou pelo menos uma disputa interessante nos próximos anos com Paulínia.

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