FAO pede que países ricos não se esqueçam da crise de alimentos

Antonio Lafuente. Roma, 15 out (EFE).- A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) quer lançar este ano uma mensagem para que a crise dos alimentos não seja esquecida ou ofuscada pela atual turbulência financeira, disse hoje à Agência Efe José María Sumpsi, número dois do órgão, por ocasião do Dia Mundial da Alimentação.

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"Não esqueçam a fome nem a crise dos alimentos" é a mensagem por meio da qual a FAO expressa seu principal temor: que a crise financeira desloque a dos alimentos do primeiro plano da agenda política mundial, afirmou Sumpsi.

Para ele, esta situação seria lamentável, pois "no último ano foi possível sensibilizar a opinião pública e os países doadores sobre a crise dos alimentos".

Esta crise, originada pelo alto preço dos gêneros alimentícios, provocou um aumento de 75 milhões de pessoas no número de famintos no mundo, que agora totaliza 923 milhões, segundo estimativas da FAO.

Como exemplo da conscientização internacional, o subdiretor-geral da FAO citou "o reconhecimento da desvalorização da agricultura" feito durante a cúpula sobre segurança alimentar realizada em junho em Roma.

Por este motivo, os líderes mundiais, entre eles os de países como França e Espanha, aceitaram aumentar os recursos para a ajuda ao desenvolvimento e se comprometeram a mobilizar uma grande quantidade de fundos.

"Agora, concentrando seus esforços nos resgates financeiros com bilhões de dólares, os países doadores nos dizem que não é o melhor momento para nos dar este dinheiro", declarou Sumpsi.

O subdiretor-geral da FAO disse, no entanto, que isto não significa que os doadores não cumprirão seus compromissos.

O problema é que por terem se comprometido em dar o dinheiro dentro de três ou quatro anos, os países "provavelmente não o entregarão imediatamente, mas esperarão que a situação melhore", o que pode criar certas disfunções no desenvolvimento dos programas de ajuda, acrescentou Sumpsi.

Perguntado sobre o que pensa em relação à mobilização de centenas de bilhões de dólares pelos países ricos para resgatar o sistema financeiro quando com muito menos poderiam contribuir com o combate à fome no mundo, Sumpsi afirmou que é um fato "triste", mas alertou que "não se pode cair na demagogia".

"Por um lado é uma reflexão dramática e triste que em poucas horas tanto dinheiro seja mobilizado para resgatar bancos que tiveram maus gerentes quando com muito menos seria possível fazer muito para eliminar a fome", declarou Sumpsi, catedrático de Economia e Política Agrária.

No entanto, ele afirmou que "o problema da fome não é só uma questão de dinheiro", já que exige ainda a criação de uma série de infra-estruturas e a tomada de decisões políticas que vão além dos recursos econômicos.

Por outro lado, declarou que a crise financeira é basicamente um problema de dinheiro e a solução consiste em injetar liquidez para "retirar todos os produtos lixo e limpar o sistema", e depois disto ele deve continuar funcionando.

Sumpsi apontou como um efeito positivo da crise financeira a atual diminuição do preço dos alimentos, já que o dinheiro está sendo retirado do mercado de matérias-primas de Chicago, onde são cotados os cereais e outros artigos de primeira necessidade.

No entanto, apesar desta diminuição, os preços dos alimentos estão ainda entre 40% e 80% mais caros, disse à Efe Valerie Guarnieri, diretora do Programa de Desenvolvimento e Apoio do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA).

Guarnieri concorda com Sumpsi em que o principal temor do PMA é que a crise financeira "diminua a vontade dos países doadores de contribuírem para cobrir as necessidades urgentes em todo o mundo".

"Os doadores foram extremamente generosos, mas o problema é que as necessidades cresceram. Mesmo com estas generosas contribuições, ainda é necessário conseguir mais dinheiro", concluiu.

No entanto, se declarou "surpresa" com a quantidade de dinheiro mobilizada para o resgate financeiro, quando apenas garantir uma xícara de cereais para todas as crianças que vão à escola nos países pobres custaria US$ 3 bilhões. EFE alg/ev/fal

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