SÃO PAULO ¿ Nos últimos 15 anos, o número de famílias de casais com filhos chefiadas por mulheres aumentou mais de 10 vezes no País e saltou de 301 mil, em 1993, para 3,6 milhões, em 2007. Os dados foram divulgados na manhã desta terça-feira, em Brasília, e fazem parte da pesquisa ¿Retrato das desigualdades de gênero e raça¿, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem).

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O estudo, que analisa dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) 2007, tem como objetivo traçar um retrato atual das desigualdades entre mulheres, homens, negros e brancos no Brasil. Segundo os pesquisadores, o aumento do percentual de famílias de casais com filhos chefiadas por mulheres ¿ de 3,4% em 1993 para 18,3% em 2007 ¿ reflete um fenômeno de natureza complexa, que envolve transformações nos padrões culturais da sociedade. De acordo com os técnicos, esse dado leva a pensar num horizonte cultural mais igualitário entre homens e mulheres dentro das famílias, seguidas de um maior empoderamento [aumento de poder] para as mulheres.

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Outro dado que também aponta uma mudança comportamental é o aumento pequeno, porém relevante, no número de famílias monoparentais masculinas (aquelas que apresentam apenas a figura paterna) de 2,1%, em 1993, para 3%, em 2007, dentre o total de famílias chefiadas por homens. Em contraste, nas famílias monoparentais femininas (aquelas que apresentam apenas a figura materna), houve um decréscimo de 63,9%, em 1993, para 49,2%, em 2006, do total das famílias chefiadas por mulheres. Na avaliação dos pesquisadores, este é um indício de mudança nos padrões hegemônicos da masculinidade brasileira. Ou seja, mesmo que lentamente, os homens têm assumido a responsabilidade de cuidar dos filhos, tarefa tradicionalmente delegada às mulheres.

Expectativa de vida

Os números referentes à expectativa de vida da população brasileira confirmam a tendência de envelhecimento. No entanto, apontam uma desigualdade entre os gêneros e as raças. O aumento da expectativa de vida é maior para mulheres em relação aos homens, e maior para a população branca em relação à negra. De 1993 a 2007, o grupo de homens brancos com 60 anos ou mais de idade passou de 8,2% para 11,1% enquanto o de negros na mesma faixa etária aumentou de 6,5% para 8,0%.

Entre as mulheres, a desigualdade racial também se repete: em 1993, o total de mulheres brancas com mais de 60 anos de idade representava 9,4% e o de mulheres negras, 7,3%; em 2007, os percentuais passaram para 13,2% e 9,5%, respectivamente.

Segundo o estudo, podem ser apontadas como causas das desigualdades os elevados índices de mortalidade de homens de uma forma geral e, em particular, de jovens homens negros. A maior vitimização das mulheres negras que, em decorrência do preconceito de gênero e do racismo têm acesso precário aos serviços de saúde, habitação, emprego, entre outros, também contribui para o quadro, apontam os pesquisadores. 

Renda

Nos índices referentes à renda financeira da população brasileira, as mulheres negras aparecem em extrema desvantagem, consequência da dupla descriminação que sofrem (de gêneros e racial). Em 2007, enquanto as mulheres brancas ganhavam, em média, 62,3% do que ganhavam homens brancos, as mulheres negras ganhavam 67% do que recebiam os homens do mesmo grupo racial e apenas 34% do rendimento médio de homens brancos.

Segundo os dados da pesquisa Retrato das desigualdades de gênero e raça, a renda média da população brasileira em 2007, teve a seguinte distribuição: homens brancos, com R$ 1.270; mulheres brancas, com R$ 780; homens negros, com R$ 640; e, por último, mulheres negras, com R$ 430.

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Os índices referentes à pobreza apontam que em 2007, entre os 10% mais pobres da população, 67,9% eram negros; já entre os 10% mais ricos, o percentual de negros caía para 21,9%. No mesmo ano, 20% da população branca situava-se abaixo da linha de pobreza, enquanto mais do que o dobro, ou 41,7%, da população negra encontrava-se na mesma situação. Levando-se em consideração que praticamente a metade (49,8%) da população brasileira é negra, a distribuição de renda está longe de refletir um equilíbrio racial no País.

Segundo os pesquisadores, ainda que se perceba uma tendência de melhora na distribuição da riqueza produzida no País, a permanência da desigualdade segue sendo o destaque.

Escolaridade

Mesmo com a diminuição do analfabetismo em todos os segmentos da sociedade, ainda nota-se desigualdades significativas entre brancos e negros no Brasil. Entre as mulheres de 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo para as brancas era de 10,8%, em 1993, enquanto para as negras era de 24,9%. Quinze anos depois, os números caíram para 6,3% e 13,7%, respectivamente. No entanto, a diferença de mais de sete pontos percentuais entre as raças evidencia a desigualdade.

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Quanto aos anos de escolaridade, todos os grupos estudados tiveram um aumento médio de 2 anos de estudo no período analisado. Porém, a diferença racial persiste: mulheres brancas têm mais anos de estudo do que homens brancos, que por sua vez, são mais escolarizados do que mulheres negras e homens negros.

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