BRASÍLIA - O ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciou nesta tarde que um projeto de Lei do Executivo será enviado ao Congresso Nacional para estipular que tipo de indenização os familiares dos três rapazes do morro da Providência, centro do Rio, assassinados por traficantes de um morro rival após serem entregues por membros do Exército, devem receber. De acordo com Jobim, a idéia é oferecer um salário mínimo (R$ 415) por mês para cada uma das famílias. O ministro não deu detalhes sobre o tempo em que o benefício será concedido.


"Vou entregar ao presidente da República (o projeto) ainda nesta semana, estamos pensando eventualmente em um salário mínimo (por mês)", disse.

A declaração foi dada numa audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, que discutiu o uso das forças armadas em ações como a do Morro da Providência, quando o Exército atuou na segurança orgânica das obras do Programa Cimento Social.

Na ocasião Jobim defendeu o uso do Exército em ações sociais, negou um possível caráter eleitoral nas obras do programa e lamentou a determinação da Justiça eleitoral em suspender as obras na Providência. Para ele, quem mais saiu perdendo foi a população local.

"O Exército vai continuar fazendo obras, se for chamado para obras dessa natureza fará", disse. "(Com a saída das forças armadas) Quem ficou contrariado foi a população", completou.

O ministro ainda afirmou que o Exército conta com a expertise necessária para atuar em regiões urbanas de conflito, e que o maior empecilho para a correta utilização das forças armadas é a revisão do estatuto jurídico da instituição, para que seja possível definir exatamente quais os tipos de ação os militares podem fazer dentro das operações.

Onze militares do Exército são acusados de entregar três jovens do Morro da Providência a traficantes do morro da Mineira, uma facção rival. Os jovens foram espancados e mortos.

Nesta quinta, a comissão especial criada para acompanhar as apurações sobre o assassinato de três jovens do Morro da Providência, no Rio apresenta seus relatórios. As comissões foram criadas pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. 

Manifestação

Durante o evento, cerca de 15 servidores do ministério da Defesa promoveram uma acanhada manifestação visando melhorias salariais e um plano de carreira para algumas categorias. No início da audiência eles ficaram em pé e bateram palmas, mas foram repreendidos pelo deputado Raul Jungmann (PPS-PE), que presidia a audiência.

Depoimentos

AE
aear
Tenente Vinicius chora durante depoimento

Acusado de ser o responsável pela entrega de três jovens do Morro da Providência que foram assassinados por traficantes do Morro da Mineira, o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade chorou muito ao ser interrogado pelo juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Criminal Federal. Em seu depoimento, ele disse que sofreu pressão de seus subordinados ¿ os outros 10 militares envolvidos no caso ¿ e resolveu dar um susto nos jovens.

Ele contou não ter imaginado que os traficantes da Mineira ¿ morro controlado pela facção Amigo dos Amigos, rival a Comando Vermelho, da Providência ¿ fossem matar os três jovens. Além do tenente, os sargentos Leandro Maia Bueno, Bruno Eduardo de Fátima e Renato de Oliveira Alves, e os soldados Jose Ricardo Rodrigues de Araujo e Julio Almeida Ré serão ouvidos nesta quinta.

Entenda o caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Leia também:


Leia mais sobre:
violência no Rio

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.