Negligência e orientações técnicas falhas emitidas pelo Ministério da Saúde estão na origem do prejuízo de US$ 6,82 milhões provocados pela perda de matéria-prima utilizada na produção de produtos para o tratamento de hemofílicos. As fundações Pró-Sangue (SP) e Hemominas (MG) afirmam que seguiram à risca as orientações despachadas pelo ministério e pela empresa LFB sobre o armazenamento do plasma que seria usado para a fabricação de hemoderivados Fator 8 e Fator 9.

Cerca de 260 mil bolsas dos dois hemocentros foram consideradas inadequadas para a produção desses dois hemoderivados pela LFB, uma multinacional francesa, contratada para fazer o fracionamento, técnica que transforma o plasma sanguíneo em quatro produtos médicos. Inspeção feita pela LFB constatou, por exemplo, que o plasma estava estocado em lugares sem refrigeração adequada.

Agora, o material poderá ser usado somente para obtenção de outros dois hemoderivados: albumina e imunoglobulina. Com a recusa da LFB em produzir o Fator 8 e Fator 9, perde-se matéria-prima para abastecer a demanda de pacientes brasileiros com hemofilia por uma semana. A Fundação Hemocentro, de São Paulo, afirma que os armazéns foram inspecionados duas vezes por equipes do Ministério da Saúde. E, nas duas ocasiões, a forma de armazenamento havia sido aprovada pelos fiscais de Brasília.

O plasma nos estoques dos dois hemocentros havia sido coletado a partir de 2004, ano em que um contrato para o fracionamento do produto no exterior havia terminado. Ao longo destes anos, os hemocentros armazenaram o produto, por força de um contrato com Ministério da Saúde. Uma nova licitação foi feita em 2007. A ganhadora, a francesa LFB, contratada por R$ 50 milhões, ficou encarregada de captar o plasma e fracioná-lo no exterior.

Pelo contrato, a empresa é obrigada a fornecer, para determinado volume de plasma, uma quantidade determinada de quatro hemoderivados: albumina, imunoglobulina, fatores 8 e 9. Ontem, ao comentar o episódio, o diretor do departamento de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Alberto Beltrame, atribuiu a recusa da LFB à "hiperexigência" da empresa. Chegou a dizer que "apostava os dedos" como parte do produto reprovado poderia ser usado para fazer os Fatores 8 e 9.

Segundo ele, tanto a Pró-Sangue quanto o Hemominas já haviam sido questionados sobre os motivos de o plasma não ter sido aprovado. Ontem, ele disse que não havia recebido nenhuma resposta. Mas o Hemominas garante que enviou sua justificativa. O Ministério da Saúde foi procurado pela reportagem. Até às 19 horas, não havia se manifestado.

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