Exército sabia da rivalidade entre morros no Rio

Desde novembro - antes de ser deflagrada a Operação Cimento Social no Morro da Providência, no centro do Rio -, o Exército sabia da rivalidade entre os traficantes daquela comunidade (do Comando Vermelho) e os do Morro da Mineira, no Rio Comprido, para onde os três jovens presos no sábado foram levados e acabaram sendo executados. A Mineira é uma das favelas que compõem o Complexo de São Carlos, onde domina a facção Amigos dos Amigos (ADA).

Agência Estado |

AE/Wilton Junior
Militares patrulham o Morro da Providência
No Relatório de Inteligência, preparado em novembro pela 9ª Brigada de Infantaria Motorizada - responsável pela segurança do projeto -, já se falava da suspeita de uma possível tentativa de tomada da comunidade pelos traficantes do Complexo de São Carlos (ADA). Apesar de o relatório dizer que não havia nada de concreto, a inteligência levantava a possibilidade de a tomada ser feita de forma indireta, com a ajuda de policiais militares.

O relato fala que traficantes do Complexo de São Carlos estariam oferecendo um montante considerável para corromper PMs. O objetivo era reforçar a repressão no Morro da Providência para enfraquecer o tráfico local, abrindo caminho para a tomada da comunidade pela ADA, como descreve o relatório. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

Desocupação

No início da noite desta quarta-feira, a juíza da 18ª Vara Federal, Regina Coeli de Medeiros de Carvalho Peixoto, decidiu pela retirada imediata das tropas do Exército do Morro da Providência , na área central do Rio de Janeiro.

Pela decisão, ela mantém o corpo técnico militar que atua nas obras do Projeto Cimento Social, mas decidiu que a proteção aos equipamentos e funcionários seja feita pela Força de Segurança Nacional (FSN).

A Força Nacional de Segurança Pública foi criada em junho de 2004 pelo Ministério da Justiça, para atuar nos Estados em situações emergenciais. Ela é comandada pela Secretaria Nacional de Segurança e reúne os melhores policiais dos Estados e da Polícia Federal.

Os integrantes da tropa, porém, não deixam de atuar nas instituições de origem. Após um treinamento de duas semanas, os policiais retornam para trabalhar em seus Estados e permanecem em prontidão para uma possível convocação. Depois de encerradas as operações especiais, são dispensados e voltam aos seus Estados.

A Advocacia Geral da União (AGU) informou que tão logo seja acionada pelo Ministério da Defesa  vai recorrer da decisão da juíza . Até o momento, porém, o Ministério da Defesa não foi notificado da decisão da Justiça. 

"Ato insano"

Agência Estado
"Judas" com farda foi colocado na Providência
Nesta quarta, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a morte dos três jovens na cidade do Rio de Janeiro, foi um ato insano .

Antes da decisão judicial, Lula não havia descartado a hipótese do Exército desocupar a comunidade, porém afirmou que teria cautela na decisão.

Se for necessário, sai. Mas isto nós vamos discutir com calma. Temos que ser cautelosos, não é por causa de um erro gravíssimo e abominável que temos que tomar medidas precipitadas.

Jobim, visitou, na terça-feira o Morro da Providência e evitou falar sobre eventual retirada. O ministro enfatizou no entanto que as obras do PAC têm que continuar e disse que o Exército não deixaria o local imediatamente .

O caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no último sábado e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

Na segunda-feira, após o enterro dos três jovens, moradores do Morro da Providência protestaram em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML). Durante a manifestação, policiais do Exército entraram em confronto com os moradores, atirando bombas de efeito moral.

(com informações da Agência Brasil)

Leia também:


Leia mais sobre: violência no Rio

    Leia tudo sobre: militares

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG