Exército descumpre ordem de juiz na Providência, no Rio

Apesar das restrições determinadas pela presidência do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (Rio e Espírito Santo), o Exército manteve ontem seus homens posicionados em pelo menos outros dois pontos do Morro da Providência, além do trecho de 100 metros onde ocorrem as obras do Projeto Cimento Social - parceria entre os ministérios da Defesa e das Cidades para a recuperação de moradias populares.

Agência Estado |

    O único local desocupado pelas tropas, ainda na noite de sexta-feira, foi a Praça Américo Brum, onde há oito dias três jovens foram detidos por militares e entregues a traficantes de um morro rival.

    Revoltados com a permanência do Exército, proprietários das casas em reforma já ameaçam paralisar as obras. Os moradores estão com medo. Se eles (os militares) não saírem do morro imediatamente, como mandou a Justiça, não vai ter obra, disse Nelson Gomes, um dos líderes comunitários da Providência. Ele também acusa as tropas de continuarem abordando moradores.

    O Estado esteve no morro e, até a tarde de ontem, ao menos 50 homens armados de fuzis, pistolas e espingardas se concentravam em três áreas: na capela do Cruzeiro, o ponto mais alto do morro; no Buraco, trecho de altura intermediária, com vista para a obra; e nas proximidades da Rua Barão da Gamboa, onde as moradias estão sendo reformadas por militares e funcionários de uma empreiteira.

    Entretanto, a ordem do desembargador Joaquim Antônio de Castro Aguiar, presidente do TRF2, limitava a atuação dos militares exclusivamente à obra. O despacho também vetava a participação deles nas ações típicas de segurança pública, como patrulhamentos e abordagens, pelo menos até a próxima quinta-feira, quando o governo federal terá de apresentar uma solução definitiva para a impasse.

    O caso

    AE/Marcos DPaula
    Policiais do Exército e moradores em confronto
    Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

    Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

    Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

    De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

    Na segunda-feira, após o enterro dos três jovens, moradores do Morro da Providência protestaram em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML). Durante a manifestação, policiais do Exército entraram em confronto com os moradores, atirando bombas de efeito moral.

    Força Nacional

    A Força Nacional de Segurança Pública foi criada em junho de 2004 pelo Ministério da Justiça, para atuar nos Estados em situações emergenciais. Ela é comandada pela Secretaria Nacional de Segurança e reúne os melhores policiais dos Estados e da Polícia Federal.

    Os integrantes da tropa, porém, não deixam de atuar nas instituições de origem. Após um treinamento de duas semanas, os policiais retornam para trabalhar em seus Estados e permanecem em prontidão para uma possível convocação. Depois de encerradas as operações especiais, são dispensados e voltam aos seus Estados.

    *Com informações da Agência Brasil e Estado

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