Euclides da Cunha reaparece em cena interpretado por Leopoldo Pacheco

O ¿branco¿, este pequeno pesadelo que assola os atores novatos e veteranos, não é mais um problema para Leopoldo Pacheco, um profissional do teatro com 30 anos de estrada. Pacheco, mais conhecido pelo papel de Cemil, na novela ¿Belíssima¿, da Globo, já tremeu e sentiu dores no estômago antes de entrar em cena na peça ¿As Mil e Uma Noites¿, levada aos palcos em 1992. Tudo aconteceu por causa de um ¿branco¿, um esquecimento momentâneo de texto, que ocorreu na noite de estréia. O ator percebeu que estava misturando frases de peças diferentes, foi para as coxias e depois voltou ao centro do palco. ¿Hoje, se eu errar, recomeço¿. Isso se chama experiência.

Cadão Volpato, iG São Paulo |

Divulgação

Leopoldo Pacheco, à frente, faz Euclides na peça "Piedade"

Perto dos 50 anos, a serem completados em setembro, Leopoldo Pacheco é um dos homens de teatro mais admirados da cidade. Levando-se em conta o sucesso da televisão _ até pouco tempo esteve no ar, na novela Paraíso _, ele é um dos atores mais prestigiados do país. Longe de ser o galã de plantão, embora tenha cativado o público feminino na pele do ingênuo, quase bobo, Cemil.

De bigodes fartos e enorme responsabilidade nas costas, o ator pode ser visto ao vivo, a partir de amanhã pelo grande público, na peça Piedade, que tem como trama o encontro de um dos mais célebres triângulos amorosos de nossa História, aquele que reuniu o escritor Euclides da Cunha, sua mulher Ana e o amante Dilermando.

Trata-se de  um evento pós- morte. Como se sabe, ao final de um caso rumoroso e humilhante entre o oficial e a mulher, o escritor procurou o amante para lavar a honra, mas perdeu o duelo. Dilermando ficou com a mulher e ainda despachou  um dos talentos mais inflamados da Literatura Brasileira. Transformou-se num grande vilão, cuja barra a minissérie Desejo (1990, Globo), com Tarcisio Meira, Vera Fischer e Guilherme Fontes, tentou limpar.

Por via das dúvidas, Leopoldo não assistiu à minissérie. Para não ter nenhuma influência. Fez o mesmo ao assumir o vilão Leôncio, interpretado na primeira dentição de Escrava  Isaura  por Rubens De Falco. Tem muito pai, marido e amante do Euclides por aí, diz ele a respeito do personagem de Piedade, a peça de hoje à noite. Para interpretar esse personagem tão conhecido quanto difícil, tão genial e tão frágil, Leopoldo foi à fonte, os textos de Euclides, uma pessoa que, segundo ele, enxergava o Brasil como se estivesse num avião.

A expressão profissional do teatro define muito bem o ator, que também pode exercer a cenografia, o figurino e a maquiagem, entre outras ocupações dramáticas. Quando trabalhava como cenógrafo para o diretor Gabriel Villela e vivia uma grande desilusão com a carreira de intérprete, apareceu o texto que o relançou como se fosse novo em folha. O ano é 2001. A peça é Pólvora e Poesia, escrita por Alcides Nogueira, que acabaria encontrando em Leopoldo Pacheco o seu Verlaine ideal. Mergulhou na obra saturnina de Verlaine, na relação do poeta com o jovem Rimbaud, e de lá emergiu com uma interpretação espantosa, que levaria quase todos os prêmios do ano.

Graças a essa parceria com Alcides Nogueira, o ator foi chamado para a minissérie Um Só Coração, o primeiro passo importante na TV. Juntos, no teatro, eles ainda levaram o monólogo A Javanesa, história de amor inspirada na canção de Serge Gainsbourg, de quem Pacheco é fã. Como era um monólogo, o ator fazia o homem e a mulher, que se conhecem, separam-se e reencontram-se 25 anos depois. Ou seja, foi preciso viver dois sexos e duas idades diferentes no mesmo pacote.

Um vilão de primeira  (Leôncio), um anti-herói romântico (Cemil), um poeta transformador (Verlaine) e agora Euclides, para ficar nos mais conhecidos: só um ator como Leopoldo Pacheco, formado na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, mas com passagem em Artes Plásticas na FAAP (desenha muito bem, trabalhou dos 15 aos 20 anos num estúdio de publicidade, fazendo desenhos animados), poderia fazer com tanta propriedade. Um artista tão experiente que a exposição na TV não incomoda nem vira a cabeça. Os atores são seres especiais e delicados porque são sensíveis, mas ao sair de cena deixo o anel dentro da caixinha. O fazer é ali mesmo.


SERVIÇO: PIEDADE

Estreia: 4 de fevereiro, 19h30 (apenas para convidados).
Temporada: de 5 de fevereiro a 21 de março.
Horário: Quarta a sábado, às 19h30, e domingo, às 18h
Local: Teatro do CCBB (125 lugares)
Duração: 70 minutos.
Classificação Indicativa: 14 anos
Ingresso: R$15,00 e R$7,00 (meia-entrada para estudantes, professores, correntistas do Banco do Brasil e maiores de 60 anos)
Centro Cultural Banco do Brasil ¿ São Paulo
R. Álvares Penteado, 112, Centro

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