Tamanho do texto

NOVA YORK, 28 ABR, Por Alessandra Baldini (ANSA) - A republicação das obras da escritora judia Irène Némirovsky, a aclamada autora de Suíte Francesa, morta em Auschwitz em 1942, e uma mostra sobre suas obras no Museum of Jewish Heritage de Nova York reacenderam nos Estados Unidos o debate sobre seu possível anti-semitismo.

Nascida na Rússia em uma abastada família de banqueiros judeus, Irene ganhou projeção quando, em 2004, o manuscrito incompleto de "Suíte Francesa" foi publicado, meio século após sua morte, tornando-se um best-seller internacional. No Brasil, o livro saiu em 2006, publicado pela Companhia das Letras.

O sucesso de "Suíte Francesa" levou à reedição de outros trabalhos, como "David Golder". "(Esses livros) nunca haviam sido traduzidos para o inglês e a publicação provocou algumas novas análises aprofundadas da vida e da carreira de Nemirovsky", escreveu a revista judaica The Forward.

As posições mais polêmicas foram aquelas da revista The New Republic, na qual o crítico literário Ruth Franklin definiu Irene como "o clássico exemplo de judeu que odeia a própria raça". Segundo Franklin, a escritora "deve seu sucesso à sua habilidade de cortejar as forças da reação e os fascistas".

As acusações do The New Republic -- contestadas fortemente nas mesmas páginas por Olivier Phillopanat e Patrick Lenhart, autores de uma recente biografia da escritora -- são dirigidas ao romance "David Golder", "povoado por uma galeria de judeus deformados, de pele amarelada e nariz em forma de bico".

Outros críticos são muito menos severos com Irene e tem quem veja nas representações dos personagens de David Golder um "clichê literário" (assim como Phillopanat e Lenhart) ou exemplos da arte da sátira usada por outros escritores judeus. "Os artifícios retóricos que ela usa são usados em textos anti-semitas mas também por Marcel Proust", escreveu Alice Kaplan no The Nation.

Não há dúvida, por outro lado, de que Irene, convertida ao catolicismo e autora de textos publicados em revistas de extrema-direita, é um personagem complexo. Após sua prisão, seu marido Michel Epstein, um devoto católico, escreveu ao embaixador alemão dizendo que a mulher "não tinha simpatia nenhuma pelos judeus, (como) demonstrou em todos os seus livros", segundo lembrou Forward.

Por outro lado, questiona a revista hebraica, quem não teria dito e tentado mesmo com esta carta salvar uma vida? Em meio a estas polêmicas, o Museu of Jewish Heritage de Nova York se prepara para explorar as facetas do personagem Irene em uma mostra que "irá provocar controvérsias", segundo anunciou seu diretor, David Marwell. (ANSA)