Eu sei o gosto do inferno, diz ex-viciado em crack

Marcelo não se lembra como foi parar em uma clínica de recuperação. Demorou 2 semanas para recobrar a consciência e lembrar o nome

Daniel Torres, enviado a Belo Horizonte* |

ARQUIVO PESSOAL
Ronaldo Viana (à esquerda) , da Terra da Sobriedade, e Marcelo Derussi (à direita)
Hoje, com 34 anos, Marcelo Derussi, fala pausadamente e com clareza. Expõe ideias e opiniões de alguém que já foi viciado em droga. Atualmente trabalhando como agente de prevenção às drogas do programa Papo Legal, parceria do governo de Minas Gerais com a associação de prevenção, recuperação e reinserção de dependente químico, Terra da Sobriedade, Marcelo fala novamento sobre o tempo em que era um dependente químico: “Foram 17 anos de bagunça”.

Vindo de uma das áreas mais carentes de Belo Horizonte, Marcelo passou a infância no bairro de Santo André, na região da Pedreira Prado Lopes. “Ali foi a minha adolescência. Um dos lugares mais problemáticos da cidade”.

Antes de afundar de vez nas drogas, Marcelo cursou até o ensino médio. A retomada dos estudos só veio agora, após os anos de 'bagunça', para tentar entender um pouco melhor tudo aquilo que passou. “Depois da recuperação fiz um curso técnico em reabilitação de dependentes químicos e fui entender melhor a loucura que é essa doença. E os 17 anos de droga me credencia. Porque eu sei qual é o gosto do inferno. O crack traz o ápice da insanidade”.

Longe do consumo das drogas desde 31 de outubro de 2006, o músico e funcionário público quer deixar o passado para trás e focar o futuro. “Eu estar aqui conversando já uma coisa incrível. Só quem conheceu o fim do poço sabe que isso aqui é um milagre. Agora eu não me prejudico mais e deixo que a vida se reconstrua e faça a parte dela”.

Marcelo falou com a reportagem do iG durante o “1º Simpósio Sul-Americano de Política sobre Drogas: Crack e Cenários Urbanos”, em Belo Horizonte.

iG - Por quanto tempo você consumiu drogas?

Marcelo - Foram 17 anos de bagunça. Com todo tipo de drogas. E o caminho normalmente é sempre o mesmo. O caminho da droga tem três finais: cadeia, cemitério ou a instituição psiquiátrica. Você passa por diversos tipos de uso. O uso nocivo, o uso abusivo, e quando chega no transtorno de dependência química, a única alternativa é a abstinência.

iG - Como você conseguiu deixar o vício?

Marcelo - Eu não consegui buscar ajuda sozinho. No nível de dependência que eu cheguei, tive que ser auxiliado. No meu caso, me levaram para a Terra da Sobriedade para poder fazer o período de desintoxicação até recobrar a lucidez. Não me lembro quando e como cheguei. Sei que foi no dia 31 de outubro, meu aniversário, em 2006. E essa foi a dose final.

iG - Como foi a recuperação?

Marcelo - Só duas semanas depois fui recobrar a consciência. Só fui lembrar o meu nome dentro de uma instituição psiquiátrica, para onde fui encaminhado depois da consulta na Terra da Sobriedade. Uns 10 dias depois, após vários medicamentos, voltei para a comunidade. Fui muito bem acolhido e fiquei quase um ano morando lá. Esse foi o meu processo. No nível que fiquei não tinha condição física de procurar uma instituição. Fui levado até ela.

iG - O que a droga fez de pior para a sua saúde física e psicológica?

Marcelo - Eu sou músico, funcionário público e também tive outras profissões. O que eu posso te falar, com absoluta certeza, é que eu poderia ter tido mais, conquistado mais, ter evoluído mais como pessoa, mas a droga tirou tudo isso. Isso tudo é imensurável. Mas uma das coisas que é claramente calculável é a perda da família. Fiquei 10 anos afastados da minha família e morando sozinho. Meu lema era ‘sozinho já tinha gente demais’. O usuário de droga é assim. A droga vai virando o centro e mais nada importa. Eu poderia ter tido uma carreira. Participei de alguns festivais e ganhei alguns. Agora estou tentando retomar essa carreira.

iG - Qual foi o primeiro contato que teve com a droga?

Marcelo - Comecei na droga muito cedo. Com 12 ou 13 anos já estava experimentando alguma coisa. Isso a gente tem que alertar. O início normalmente é muito cedo e eu não sou exceção. E a porta de entrada normalmente é o álcool. Começa tomando espuminha de cerveja na festa da família. Começa no cigarro na escola com os amigos. O crack é o ápice, mas precisamos insistir na prevenção das outras drogas pra não chegar ao crack.

iG - O que é preciso para tirar os jovens das drogas?

Marcelo - É preciso só de mais apoio. A gente só precisa se unir. A dependência química é uma doença de egoísmo. A pessoa se fecha pra dentro de si e o umbigo vira o centro do universo. A recuperação é o caminho contrário. É o encontro com o próximo, a busca da solidariedade, é o bem.

iG - No que ter convivido com a droga te faz mais experiente para trabalhar com dependentes?

Marcelo - É verdade aquela frase que diz que 'o que não te mata, te fortalece'. Eu não posso dizer que fico feliz quando eu olho dados que dizem que 3% dos dependentes sobrevivem a essa loucura. Isso quer dizer que grande parte dos meus amigos morreu. Isso é uma coisa que me entristece muito e me motiva a sair do lugar e auxiliar essas pessoas. Eu sei o que é virar a noite atrás de droga, o que é acordar sem querer levantar porque você sabe que aquele dia será mais um dia de uso. Sei o inferno que é tanto na vida do dependente quanto na vida de um familiar do dependente. Essas coisas, só outro dependente entende.

iG - Você tinha a consciência do mal que fazia para a sua família?

Marcelo - A gente sabe que a visão que a droga traz de tudo é distorcida. Mas o prejuízo é claro pra gente. Mesmo assim, por maior o prejuízo que o sujeito tenha, ele não para de usar. Ele sabe que a vida está indo para o buraco e ele vai entristecendo mais ainda. Eu, por exemplo, lembro que eu não queria acordar. Hoje isso me faz dar valor a cada dia e até pessoas que nunca usaram drogas precisam ter a dimensão que cada dia é especial. Na droga, eu sabia muito bem como seria o meu dia: boca, casa, boca, casa. Fora da droga tudo pode acontecer. Coisas boas e coisas ruins.

iG - O que sua experiência com as drogas pode trazer de lição?

Marcelo - Eu sei do sofrimento, eu sei como é difícil, eu sei que precisa de uma mão amiga. Eu sei também que o poder público precisa investir nessa matéria, pois investe-se muito pouco. O investimento é pequeno em comparação com o tamanho do problema. Hoje eu dou um pouquinho da minha vida porque eu fui restituído. Independentemente da religião, Deus é muito importante pra mim e inclusive importante neste processo. A espiritualidade é fundamental na recuperação.

iG - E como está o contato com a sua família?

Marcelo - Em moro com a minha mãe. Hoje posso falar que eu sou um filhinho da mamãe. E eu passei 10 anos longe dela. É uma experiência de retomada. Existem coisas que eu não vou conseguir retomar e peço a Deus todos os dias para ter paciência quanto a isso. Eu estar aqui conversando com você já uma coisa incrível. Só quem conheceu o fundo do poço, sabe que isso aqui é um milagre.

iG - E que coisas são essas que você acha que não vai mais retomar na vida?

Marcelo - As possibilidades que perdi. Acho que a fala ‘tenho saudade até do que não vivi’ é certa no meu caso. Daquilo que não aconteceu. Mas eu tento não pensar muito nisso não. Não viajo muito nessa história não. Dou muito mais valor para o tempo. Quando me drogava, como era trabalhador, eu não precisei furtar e roubar, mas isso não me diferencia daquele dependente que fica enquadrando alguém no sinal. Porque eu roubei muito de mim. Na droga é insanidade pura. Os valores não existem. Eu me roubei muito tempo, muitas possibilidades e muito dinheiro. Fui um assaltante de mim mesmo. Agora eu não me prejudico mais e deixo que a vida se reconstrua e faça a parte dela. E vem fazendo.

* a reportagem do iG participa do seminário à convite da organização do evento

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