Estudo monta quebra-cabeça da dependência à nicotina

A nicotina é capaz de sequestrar processos neuronais associados ao aprendizado e à memória. Dessa forma, ela molda o comportamento dos usuários para perpetuar o vício.

Agência Estado |

É o que mostra um estudo realizado com camundongos e publicado na revista científica Neuron. Os resultados explicam por que certas recordações associadas à droga, como as relacionadas ao lugar de consumo, tornam tão difícil o abandono do vício. Pesquisas anteriores já estabeleciam associações entre a dopamina (neurotransmissor relacionado à sensação de recompensa) e o surgimento da dependência.

Também era conhecida a importância da substância na promoção de certa plasticidade do sistema nervoso, possibilitando um rearranjo das conexões neuronais, essencial em processos de aprendizagem. Outros estudos comprovavam o papel do hipocampo - estrutura do cérebro importante para a formação de memórias - no estabelecimento do vício. Mas foi no trabalho da Neuron que os cientistas conseguiram reunir as peças do quebra-cabeça da dependência.

No estudo, pesquisadores instalaram na cabeça dos roedores um pequeno aparato que gravava sinais neuronais. Depois, injetaram nicotina e observaram o que acontecia no cérebro das cobaias. Eles identificaram, indiretamente, uma descarga de dopamina dentro do hipocampo. A substância aumentava a plasticidade dos neurônios e os animais “aprendiam” a preferir o lugar onde a droga era administrada.

A descarga de dopamina corresponde ao registro de uma experiência como importante ou nova. Sob seu efeito, memórias relacionados ao entorno do evento que as produziu são guardadas de forma estável. “Na maioria das vezes, essas recordações nos ajudam a estabelecer comportamentos vantajosos. É o que ocorre em qualquer processo de aprendizagem”, diz o coautor do artigo, John Dani, da Faculdade de Medicina Baylor, em Houston, nos Estados Unidos. “Mas, nesse estudo, estão associadas à droga e dependência.” Para Dani, os resultados explicam por que determinados fatores ambientais, como lugares ou pessoas associadas ao uso da droga, despertam sentimentos que motivam a manutenção do vício ou até mesmo uma recaída.

Para Sidarta Ribeiro, do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, as conclusões são interessantes. “A memória guarda, junto com um evento marcante, todo o seu contexto. Já sabíamos disso e da participação da dopamina no hipocampo nesse processo. Mas só agora os mecanismos bioquímicos estão sendo descritos.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

AE

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