ESTREIA-Scorsese cria suspense com toque político em novo filme

SÃO PAULO (Reuters) - Martin Scorsese entra no centro da paranóia em Ilha do Medo, suspense ambientando nos anos 50 e estrelado por Leonardo DiCaprio que teve sua première mundial no Festival de Berlim, em fevereiro. Como em O Iluminado(1980), o famoso filme de Stanley Kubrick, há um protagonista num local isolado. E os acontecimentos a cada momento fogem ao seu controle, percebendo-se uma espiral crescente de loucura. E a plateia é convidada a uma viagem ao inferno. No que se pode acreditar?

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No caso, o protagonista é Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, "Foi Apenas Um Sonho"), um agente do FBI que, junto com o parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo, "Onde Vivem os Monstros"), é chamado para uma investigação no manicômio judiciário de Ashecliffe. Um local completamente isolado na rochosa ilha de Shutter, nas proximidades de Boston. Ali, só se entra e sai por meio de uma balsa, sendo o acesso severamente vigiado por guarda armados de fuzis.

Teddy e Chuck estão ali para investigar o desaparecimento misterioso de uma interna, Rachel Solando (Emily Mortimer, "Cinturão Vermelho"), que, anos atrás, teria matado seus três filhos, afogando-os. Ela conseguiu sair de uma cela trancada, sem sapatos, enfrentando o chão pedregoso e um clima constantemente chuvoso e frio. Difícil imaginar como. Difícil esperar que possa estar viva.

Os psiquiatras atuantes no hospital, o dr. Cawley (Ben Kingsley, "Oliver Twist") e o dr. Naehring (Max von Sydow, "O Escafandro e a Borboleta"), são reticentes e não permitem o livre deslocamento dos agentes. Ao mesmo tempo, Teddy sente-se cada vez mais perturbado e indisposto. Ele carrega consigo o peso de um passado doloroso, em que se misturam experiências traumáticas de guerra - em que ele participou da liberação do campo de concentração de Dachau (Alemanha) - e a morte trágica da mulher, Dolores (Michelle Williams, "Sinédoque - Nova York") num incêndio.

A noite de Teddy é povoada de pesadelos, em que vê os fantasmas da mulher e também das crianças da prisioneira sumida, misturando tudo numa espiral de angústia que está minando sua energia. Ao seu lado, Chuck, o parceiro com quem atua pela primeira vez, tenta ser compreensivo e conversar.

Só então Chuck descobre que Teddy tem uma agenda própria nesta ilha, onde procura desvendar uma suposta operação clandestina do governo para o esmagamento de supostos esquerdistas, no auge das atividades do temível Comitê de Atividades Antiamericanas do senador Joseph McCarthy, em 1954.

Partindo do livro de Dennis Lehane, o celebrado autor de "Sobre Meninos e Lobos" (origem do filme homônimo de Clint Eastwood, de 2003), Scorsese torna a história totalmente sua, criando um território aonde leva o espectador pelos sentidos, mas guarda consigo a chave do mistério.

Para isso, cerca-se de alguns dos melhores profissionais à disposição, caso de sua habitual montadora, Thelma Schoonmaker, do desenhista de produção Dante Ferreti, do diretor de fotografia Robert Richardson - responsável pela criação das formidáveis texturas ultracoloridas dos pesadelos de Teddy, com a colaboração do supervisor de efeitos visuais Rob Legato.

A música, uma fusão do trabalho de vários compositores, como o polonês Kzrysztof Penderecki (de "O Iluminado" e "O Império dos Sonhos"), tem a supervisão de Robbie Robertson, e é um dos ingredientes fundamentais para a criação do clima opressivo de que depende este suspense. Que é, aliás, um trabalho de maturidade e engenho, digno da história de Scorsese, cujos últimos filmes foram o documentário "Rolling Stones - Shine a Light" (2008) e o premiado drama "Os Infiltrados", vencedor de quatro Oscar, inclusive melhor diretor.

Parceiro constante de Scorsese em suas últimas produções, Leonardo DiCaprio exibe uma performance repleta de nuances, pungente, dilacerante. Se alguém tem dúvida de que ele é um dos grandes atores da atualidade, este é o filme para tirar as dúvidas.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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