ESTREIA-Filme romeno revê herança da era Ceausescu

SÃO PAULO (Reuters) - Bola da vez no mercado internacional, o cinema romeno nos últimos anos conquistou um posto que por muito tempo pertenceu ao cinema iraniano, atraindo a atenção de festivais, críticos e cinéfilos como novo pólo da renovação e criatividade cinematográfica dentro de uma grande economia de meios. Na esteira desse reconhecimento, que alçou seu degrau máximo com a conquista da Palma de Ouro em Cannes 2007 por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu , chega às telas de São Paulo a comédia dramática Casamento Silencioso.

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Filme de estreia de Horatiu Malaele, revisita o cenário favorito dos novos cineastas romenos - o passado comunista sob Nicolae Ceausescu, o ditador deposto e morto em 1996.

Ator com largo currículo dentro e também fora de seu país - atuou em "Amém", de Costa-Gavras -, Malaele, de 57 anos, escreveu igualmente o roteiro deste seu primeiro filme em torno de uma pequena aldeia, visitada, nos dias de hoje, por uma equipe de televisão que caça fenômenos paranormais.

Guiados pelo prefeito, os integrantes da trupe encontram um cenário um tanto fantasmagórico, composto por ruínas e figuras estranhas, como uma velha prostituta e uma menina que parece usar trajes de noiva. Apenas velhas mulheres formam a escassa população do local.

O fenômeno paranormal procurado está na permanência de velhos fantasmas, cuja explicação emerge dos relatos sobre um casamento ocorrido em 1953. Iancu (Alexandru Potocean) e Mara (Meda Andreea Victor) eram os namorados mais notórios e escandalosos da aldeia. A fúria de sua paixão despertava comentários e já provocava conflitos entre suas famílias.

Arma-se a cerimônia do casamento e uma grande festa, com a preparação de muita comida. Bem no momento em que começava a festa, chegam representantes do partido comunista local e proíbem toda e qualquer comemoração.

Bem naquele dia, havia morrido Josef Stálin. Qualquer manifestação de alegria, portanto, estava terminantemente proibida. Toda a comida preparada teria de esperar. Ou estragar-se.

Combinados com o pai da noiva, os camponeses aparentemente acatam a ordem.

Recolhem-se às suas casas e todos os preparativos da festa são escondidos. Na calada da noite, atendendo a um plano secreto, reúnem-se novamente na casa dos noivos. Lá dentro, em silêncio completo, desenrola-se a ceia. As conversas dão-se por meio de cochichos e gestos. Os músicos apenas executam movimentos abafados, já que não podem fazer soar seus instrumentos. Até que uma tempestade no meio da noite dá outras ideias e precipita uma tragédia.

Conduzindo com humor corrosivo diversas sequências, que lembram um tom do bósnio Emir Kusturica ("A Vida é um Milagre", "Underground - Mentiras de Guerra") em alguns momentos, Horatiu Malaele demonstra perícia como diretor. De quebra, faz comentários precisos sobre os arbítrios da velha ordem comunista e o vazio de valores trazido pela nova situação depois de sua queda.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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