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ESTREIA-Em Amantes , personagem quer superar depressão com amor

SÃO PAULO (Reuters) - Amantes, que estreia no Brasil nessa sexta-feira, é filme que poderia ser extremamente óbvio - mas não é. Escrito e dirigido por James Gray, esse drama romântico tem uma premissa que lembra um famoso poema de Drummond. Aqui, Sandra ama Leonard, que ama Michelle, que ama Ronald, que não a ama o suficiente para abandonar a esposa e filho e ficar com ela. E todos sofrem por isso. Amantes marca um amadurecimento do norte-americano Gray, mais conhecido por seus dramas policiais Caminho Sem Volta (2000) e Os Donos da Noite (2007). Aqui, trabalhando a partir de um roteiro que escreveu em parceria com Ric Menello, o cineasta aborda novamente um tema que lhe é caro: o papel da família na vida das pessoas. Os laços que unem podem tanto ser de amor como de desprezo, podem tanto ajudar, quanto oprimir.

Reuters |

Leonard (Joaquin Phoenix, em seu último trabalho antes de surtar publicamente no começo do ano) é um rapaz deprimido. Na primeira cena ele tenta se matar, se atirando de um píer em Brighton Beach.

Mais tarde, cicatrizes no pulso mostram que essa não foi a primeira tentativa. Preocupados, seus pais, Ruth (Isabella Rosselini) e Reuben (Moni Moshonov), armam um encontro entre ele e Sandra (Vinessa Shaw, de "De Olhos Bem Fechados"), a filha de um dono de uma rede de lavanderias com a qual Reuben espera fundir a sua pequena loja do mesmo ramo.

O relacionamento entre os dois jovens seria bom tanto para eles, individualmente, quanto para os negócios das famílias.

Embora se deixe levar pelas circunstâncias, Leonard é uma alma perdida, que vaga solitária até conhecer sua nova vizinha, Michelle (Gwyneth Paltrow). Ela parece ser o oposto dele, alegre, de bem com a vida, bem-sucedida e luminosa.

Mas, aos poucos, percebe-se que isso não passa de uma máscara que esconde a verdadeira Michelle, melancólica, autodestrutiva e vivendo um relacionamento complicado com um homem casado (Elias Koteas).

O drama central de "Amantes" é atemporal e poderia acontecer em qualquer lugar do mundo - não fossem pelos celulares bastante usados para comunicação entre os personagens.

O roteiro busca inspiração numa novela do russo Dostoievski chamada "Noites Brancas" (adaptada mais fielmente para o cinema em 1957, com a direção de Luchino Visconti, que no Brasil se chamou "Um Rosto Na Noite").

Leonard gravita entre essas duas mulheres. Sandra, meio sem graça, representa a segurança, os pés no chão que ele não tem. Já Michelle, tão misteriosa quanto hipnótica, é a excitação que falta em sua vida. Para quem está de fora, ou seja, o público, fica muito claro qual das duas é a mulher ideal para o rapaz. Mas, para ele, envolvido nesse turbilhão de sensações, todas ainda mais extremadas com a bipolaridade do personagem, é difícil romper a cegueira momentânea do amor.

Por trás de todo esse dilema na vida do personagem há um peso que tem atormentado rapazes de ascendência judia no cinema e na literatura norte-americana - especialmente aqueles criados por Philip Roth ou o personagem Augie March, de Saul Bellow -, a lealdade familiar. A divisão de Leonard entre essas duas mulheres representa a dúvida de seguir seu dever filial (casar-se com Sandra, uma boa moça de origem judia, o que também ajudaria economicamente a família) ou se entregar a Michelle, que representa o impulso, o perigo e a liberdade que ele não tem. É uma escolha difícil que atormenta o protagonista.

Gray pinta esse quadro de insatisfação com pequenas pinceladas, valorizando detalhes, construindo personagens com arcos e verossimilhança, ou seja, pessoas que amam, choram e sofrem a perda de um amor e são incapazes de lidar com essa dor. Num momento, Sandra pede a Leonard para deixá-la cuidar dele. Poucas cenas mais tarde, será ele quem repetirá a frase, mas agora a Michelle. Tamanha a alienação do personagem que ele precisa se valer de coisas ditas pelos outros para compreender e expressar aquilo que sente.

Os personagens de Gray parecem ter ciência de estarem fazendo suas últimas escolhas, que já passaram da idade de brincar de amar e que, se não forem rápidos, a vida cuidará de tomar decisões por eles.

Tal qual o poema de Drummond, "Quadrilha", no final, os personagens podem acabar infelizes por conta de um deus ex machina. Incapazes de decidir por si mesmos, de mãos atadas ou com medo, o destino acaba fazendo as escolhas e o resultado pode ser apenas o início de uma espiral de melancolia e desolação.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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