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ESTRÉIA-Em Linha de Passe , a busca por uma vida digna

SÃO PAULO (Reuters) - No jargão do futebol, linha de passe define a troca de passes entre os jogadores de um time sem que a bola seja interceptada pelo adversário. O termo, que também serve de título ao novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, se encaixa perfeitamente na história de uma mãe e quatro filhos que buscam melhorar de vida. Todos têm de tocar a bola sem deixar que ela escape de seu controle. Os jogadores do filme, ambientado na periferia de São Paulo, são os cinco personagens centrais.

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Dario (Vinicius de Oliveira, que estreou em 'Central do Brasil', também de Salles) sonha ser jogador de futebol e tem talento para isso. Porém, se aproxima dos 18 anos e suas chances são cada vez mais limitadas.

Dinho (José Geraldo Rodrigues), evangélico, é frentista num posto de gasolina; Dênis (João Baldasserini), motoboy, não vê muitas perspectivas para o futuro; e Reginaldo (Kaique Jesus Santos), o caçula, é um menino negro em busca do pai, motorista de ônibus.

A mãe, Cleuza, é interpretada pela atriz de teatro Sandra Corveloni, que conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, desbancando a favorita Angelina Jolie. Novamente grávida, ela trabalha como doméstica, e é uma torcedora fanática do Corinthians. 'Eu sou a mãe e o pai de vocês', costuma dizer.

A linha do tempo do filme acompanha as diversas peneiras pelas quais Dario passa, enquanto a vida dos membros da família cozinha em fogo brando. Todos com uma vontade de mudar, mas, aparentemente, sem poder de ação.

Dario tem muito talento para o futebol, mas é fominha demais com a bola. Por isso, nunca é escolhido nas seleções.

Quando surge a oportunidade, ele tem de subornar o técnico de um pequeno time para conseguir a chance de entrar em campo.

Dario não tem o dinheiro, mas promete conseguir.

Dênis tem um filho e, eventualmente, passa a noite com a mãe da criança; mas também seduz a secretária da agência de motoboys onde trabalha.

Em sua terceira parceria, Salles e Daniela lançam um olhar carinhoso sobre uma parcela da população mais humilde. Eles já haviam trabalhado juntos em 'Terra Estrangeira' (1996) e 'O Primeiro Dia' (1998).

Sem fazer julgamentos ou manipulações, os diretores mostram vidas cujas opções são limitadas ou quase inexistentes. Não culpam a sociedade nem apresentam soluções.

'Futebol é coletivo', diz o técnico numa das peneiras enfrentadas por Dario. Assim, o esporte, no filme, ganha status de metáfora da vida. Cleuza acompanha a queda do Corinthians para a segunda divisão, sai frustrada e impotente dos jogos.

Mas o mesmo acontece em sua vida, sobre a qual não consegue ter controle, enquanto é achatada pela falta de esperança.

Num momento crucial de 'Linha de Passe', um personagem desesperado diz: 'Olha para mim'. Em sua frase de múltiplas interpretações ecoa toda uma família, uma fatia da população em busca de uma vida mais digna. Mesmo sem buscar culpados ou soluções, o filme passa a mensagem de que a mudança é possível --basta olhar com mais atenção ao redor.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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