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SÃO PAULO (Reuters) - O diretor mexicano Carlos Reygadas é um autor para poucos. Seleciona não-atores para o elenco, despreza maquiagem e luz artificial, prefere a câmera na mão e seus roteiros são, invariavelmente, pinceladas de alegorias e metáforas do mal-estar social em seu país. Seu filme de estréia, Japón (2002), causou impacto na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes e foi um dos destaques da 26a. Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo no mesmo ano.

A narrativa silenciosa acompanha um homem cínico e depressivo que se muda para o interior do país para cometer suicídio.

Em outro filme, o polêmico 'Batalla en el Cielo' (2005), exibido na 29a. edição da Mostra de SP, Reygadas chegou a ser vaiado no mesmo festival francês que o consagrou. Nenhum dos dois filmes entrou no circuito comercial no Brasil, restringindo-se a festivais de cinema.

Sua mais nova produção, 'Luz Silenciosa', é seu primeiro filme a chegar às salas comerciais no Brasil e reflete um amadurecimento do diretor, que levou o prêmio do Júri no Festival de Cannes 2007.

A produção retrata a difícil escolha de Johan (Cornelio Wall), patriarca de uma família menonita tradicional que vive numa comunidade no norte do México. Pai de sete filhos e marido da delicada Esther (Miriam Toews), ele se apaixona por Marianne (Maria Pankratz, em excepcional atuação) e vive o dilema entre a família e o novo amor.

Indeciso em sua escolha, Johan busca apoio de amigos e parentes pudicos, procurando convencê-los de que o adultério não é o seu crime. Para o personagem, o amor expia seus pecados e o sofrimento da dúvida já é, por si só, sua maior penitência.

Para narrar esse conflito moral, Reygadas sabe que a verborragia não se aplica ao seu cinema. Os longos silêncios e planos se sobrepõem ao sofrimento mudo de seus personagens, criando um cenário intimista e cativante, que faz o espectador divagar.

Em determinado momento, um dos personagens diz: 'A paz é mais forte do que o amor.' Cabe a quem vê decifrar os valores subentendidos de uma comunidade, cuja autoridade final é o Novo Testamento.

Uma das curiosidades do filme é o fato de ele ser inteiramente falado em uma espécie de dialeto, proveniente de uma ramificação da língua alemã, muito pouco conhecida e apenas praticada em comunidades menonitas (doutrina que nasceu ainda no século 16, um ramo mais radical do cristianismo).

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)

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