"Estou interessado só na Justiça", diz homem que denunciou padres em AL

Alterman Leite, que teria um irmão e um sobrinho vítimas dos padres em Arapiraca, prerstou depoimento nesta terça-feira

Mariana Lima, enviada especial a Arapiraca |

Concorrendo em expectativa com o interrogatório dos padres , os depoimentos da delegada Bárbara Arraes e do comerciante Alterman Leite ocorreram sem grandes surpresas para o andamento do julgamento dos padres Luiz Marques, Raimundo Gomes e Edílson Duarte. Bárbara e Alterman foram citados nos depoimento de outras testemunhas e chamados pelo juiz João Azevedo Lessa para prestar esclarecimentos.

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Mariana Lima
Alterman Leite de Lima foi quem denunciou abusos sexuais que padres teriam cometido contra menores de idade
O comerciante Alterman Leite de Lima, 39, conta que não imaginou que, ao procurar saber mais sobre o homem que estaria difamando sua família, iria . Muito menos que duas dessas vítimas seriam da sua própria família.

Filho de uma conhecida beata de Arapiraca, há dois anos Alterman decidiu investigar o monsenhor Raimundo Gomes para tentar descobrir o motivo das mentiras que o padre espalhava sobre sua família na tentativa de tomar a condução da entidade “Casa da Esperança” da sua mãe, Carmelita Leite. Não descobriu nada sobre isso, mas soube que o religioso fora transferido para Arapiraca fugindo de denúncias de abuso sexual em Penedo.

“Eu fiquei impressionado com isso, aí como o Anderson, que já tinha sido coroinha dele, frequentava a minha casa, resolvi perguntar a ele. Foi então que ele me disse que tinha sido abusado pelo padre quando tinha 12 anos e que tinham outros dois ex-coroinhas que tinham feito o vídeo com o monsenhor Luiz”, disse.

Alterman diz que ficou mais impressionado ainda quando, comentando o assunto com a família, ouviu dois desabafos: um do irmão Cleiton, de 34 anos, e outro do sobrinho B., de 12. Segundo ele, quando o irmão tinha 12 anos e ajudava na igreja, foi beijado na boca por monsenhor Luiz Marques, que ainda tentou agarrá-lo. Já o sobrinho, dois anos atrás, durante uma confissão, quase foi beijado à força pelo padre Edílson. O menino saiu correndo da igreja, constrangido, e contou à mãe, que guardou segredo por medo da reação da família.

“Foi aquele impacto. P... merda, dentro da minha casa! A situação não é fácil, mexe com o nosso sistema nervoso, mas isso só me deu força, como pai, como irmão, como tio”, desabafou Alterman, que pegou o vídeo dos ex-coroinhas e partiu para São Paulo, para entregá-la à imprensa, além de tentar os meios legais.

“A história do meu irmão já estava para trás, mas procuramos o Gecoc [Grupo de Combate às Organizações Criminosas do Ministério Público de Alagoas] para que meu sobrinho fizesse a denúncia e alertamos para a intenção dos padres em calar os coroinhas, abafar a história por aqui”.

Alterman virou uma espécie de vilão para boa parte da cidade que apoia os padres, mas diz que não se importa. “Estou interessado só na Justiça, e a verdade está do meu lado. Pode bater, podem falar, não me importo”. Ele diz que ainda tem guardado várias gravações da época em que a matéria do jornalista Roberto Cabrini estava sendo feita, inclusive com conversas dos padres e que, se preciso, vai entegá-las à Justiça também para garantir a punição dos abusadores.

Com o julgamento dos padres, além de Justiça, Alterman diz que espera um encerramento do assunto para que os ex-coroinhas Cícero Flávio, Fabiano Ferreira e Anderson Farias possam seguir com suas vidas, assim como seu sobrinho e seu irmão fizeram. “Estamos protegendo meu sobrinho da exposição, mas ele está tranquilo, até porque ele desabafou logo. Meu irmão, que guardou isso com ele durante vários anos, teve traumas, a ponto de fazer xixi na cama até os 15 anos e nunca trocar de roupa na nossa frente, mas foi muito firme em reerguer sua vida e não deixar que estes homens abalassem sua vocação”.

Cleiton, o irmão de Alterman, neste momento está em um seminário na França e em breve será ordenado padre. Ele estava em um seminário em Anápolis (GO), mas teve sua carta de recomendação retirada pelo monsenhor Raimundo Gomes quando as denúncias surgiram e, assim, impedido de continuar lá – juntamente com Adriano Farias, irmão do ex-coroinha Anderson, pelos mesmos motivos.

Delegada

Mariana Lima
Bárbara Arraes se defendeu da acusação de coação por uma testemunha do caso
A delegada foi acusada de coação por uma testemunha. Durante seu depoimento na primeira audiência, no dia 8 de julho, José Alexandre, conhecido como Dudu, negou que soubesse que os padres abusavam dos coroinhas, e que só falou isso no inquérito policial porque foi pressionado pela delegada.

Bárbara Arraes, que chegou a comparecer à audiência passada, estava tranquila quando chegou ao Juizado durante a tarde. “Acredito que tudo foi um engano, sempre trabalhei com profissionalismo e estou segura da minha conduta”. A delegada conta que, em seu primeiro depoimento durante o inquérito, Dudu negou conhecer os abusos, mas mudou sua versão durante depoimento à CPI da Pedofilia, em abril de 2010. Ao ser chamado novamente à delegacia, ele confirmou os abusos.

A personalidade volúvel da testemunha foi confirmada durante a audiência, quando o juiz desconsiderou as denúncias de Dudu e liberou a delegada – cuja conduta foi elogiada até pelos advogados de defesa – sem necessidade de uma acareação entre ambos.

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