Estilista Alice Tapajós é acusada de falsidade ideológica

A estilista Alice Tapajós, que por 20 anos comandou a sofisticada, e cara, grife que levava o próprio nome, corre o risco de pegar até quatro anos de prisão. Alice, que fechou a última loja da marca em 2004, é acusada em processo que corre na 32ª Vara Criminal do Rio de falsidade ideológica e formação de quadrilha.

Agência Estado |

Segundo denúncia da promotora Dora Beatriz Wilson da Costa, durante dez anos, ela abriu e fechou empresas usando "laranjas". "Foram anos de práticas espúrias", diz Beatriz. "Não há nem como calcular o valor da dívida que ela deixou na praça." Alice foi procurada pela reportagem, mas não atendeu às ligações.

Uma das supostas vítimas da estilista e do ex- marido dela, José Mário Tournillon Ramos, que administrava os negócios do casal, é o técnico em telecomunicações Damião Cristiano de Souza Oliveira, de 35 anos, morador de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Em 1992, Oliveira perdeu a carteira de identidade e o Cadastro da Pessoa Física (CPF) dentro de um ônibus. Quando, em 2001, foi fazer o recadastramento do CPF na Receita Federal, descobriu que estava com o nome sujo por uma série de dívidas. Sem saber, o nome dele constava como sócio de Alice. No caso, o sócio que herdava os débitos das empresas quebradas, todas abertas pela família Tapajós.

"Nunca vi essa mulher. Não sei nem o que ela faz. Como pode alguém fazer uma maldade dessas comigo?", lamentava hoje, feliz pelo calvário ter sido, finalmente, desvendado. Durante sete anos, Oliveira tentava descobrir porque o nome estava sujo. Sem CPF e com a Receita no pé, o técnico em telecomunicações não conseguiu arrumar emprego. "Passei em concurso da Cedae (Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) e não pude ser contratado porque estava com o nome sujo. Ninguém me dava emprego." Fez um biscate aqui, outro ali. A mulher ameaçou até sair de casa. "Ela não acreditava que ninguém me dava emprego porque eu não podia abrir conta em banco. Me chamava de vagabundo, encostado." Oliveira escreveu cartas para órgãos públicos, tentou que alguém na Receita explicasse o que acontecia. Em vão. Mandou até um e-mail para o governo federal, numa tentativa desesperada de sensibilizar a administração federal. Ninguém respondeu.

O desespero aumentou quando ele começou a ser convocado para dar depoimento na polícia. Aí, então, descobriu que era sócio de cinco confecções. Todas quebradas. A sorte só mudou agora, depois que a Delegacia de Defraudações (DDEF), depois de quatro anos de investigação, desvendou este esquema criado pela família Tapajós. Na denúncia, além de Alice e de Ramos, estão os filhos do casal, José Francisco Tapajós de Oliveira e Antônia Tapajós de Oliveira Ramos, que trabalhou com a mãe nos áureos tempos da marca comercial.

Juíza

Alice, o ex-marido, Tapajós Oliveira e Antônia serão ouvidos pela juíza Natascha Maculan Adum em 11 de junho, junto com a comerciária Patrícia da Rocha Carvalho, que, segundo a promotora, emprestou o nome para as empresas acreditando nas promessas da acusada, nunca cumpridas. Alice sempre freqüentou a alta sociedade carioca. Morou na Avenida Delfim Moreira, de frente para o mar do Leblon. Passou por um período difícil em 1991, quando foi seqüestrada. A estilista só foi libertada depois do pagamento de US$ 100 mil (R$ 168,8 mil reais em valores atualizados) de resgate. Depois disso, passou um tempo fora do País e voltou em 1994, anunciando uma grande virada na grife, a representação da marca Donna Karan no Brasil. O negócio não deu certo e, a partir daí, a marca Alice Tapajós começou a enfrentar uma grave crise. A última loja, no Shopping Fashion Mall, foi repassada por R$ 700 mil a uma outra empresa. A promotora diz que esta transação foi feita ilegalmente.

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