Espelho, espelho meu, existe alguém mais feio do que eu?

Espelho, espelho meu, existe alguém mais feio do que eu? Por Giuliana Reginatto São Paulo, 25 (AE) - Foram 12 cirurgias plásticas no nariz. A última delas, não mais estética.

Agência Estado |

Era preciso colocar uma prótese ali para preservar a função respiratória. Esta não é a história do cantor Michael Jackson, morto no ano passado, mas poderia ser. O caso ilustra o dilema de um dos 350 pacientes analisados pela dermatologista Luciana Conrado em sua tese de doutorado sobre o transtorno dismórfico corporal (TDC), pela USP.

De natureza mental, o distúrbio se manifesta por meio da preocupação excessiva com pequenas imperfeições estéticas - imaginárias, muitas vezes. "São defeitos que essas pessoas pensam ter ou que até existem, mas são vistos de forma bastante exagerada. É uma pequena mancha no rosto, por exemplo, não perceptível em uma distância que usamos para dialogar, mas que tem grande impacto na vida da pessoa, provocando muito sofrimento", explica.

Do trabalho de Luciana, um estudo interdisciplinar entre o Departamento de Dermatologia e o Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, vem um dado inédito no Brasil. Ela dividiu seus 350 voluntários em três grupos e constatou que 14% dos pacientes que haviam passado por procedimentos estéticos - entre eles botox, preenchimentos faciais, peelings e tratamentos a laser - apresentavam o distúrbio. "Nesses pacientes, a insatisfação é permanente, vai mudando de foco. No caso da moça das 12 cirurgias, um dia o ‘monstro’ deixou de ser o nariz e passou a ser o excesso de pelos que ela achava ter. As queixas, neste tipo de transtorno, são sobre dois lugares ou até sete", detalha.

Para os pacientes de dermatologia comum, sem intervenções, o índice de TDC encontrado por Luciana foi de 7%, passando a 2% no grupo que representava a população comum. Não é pouco. Uma doença mais popular, como a diabete, atinge 5,2% dos brasileiros acima de 18 anos, segundo o Ministério da Saúde. "Talvez, tenhamos mais gente, mas é difícil fazer o diagnóstico. Esse indivíduo tem medo de ser considerado fútil, vaidoso, e nem sempre revela suas angústias. Muitos nem sequer acham que estão doentes e sofrem secretamente. Vão pulando de médico em médico até encontrar quem faça a intervenção desejada."

Reflexos mal-interpretados diante do espelho não raro expõem o paciente a riscos emocionais e orgânicos. "Uma paciente deixou a veia carótida, no pescoço, exposta, enquanto tentava se livrar de um sinal que via ali. Outra, chegou a ficar oito horas diante do espelho, sem dormir, analisando o defeito, vendo se piorava. Logo, muitas deixam de sair de casa por conta disso, colocam o trabalho em risco por atrasos e se afastam de todos", completa Luciana.

BOXE

TDC também tem forte componente genético

A psiquiatra Jocelyne Rosenberg passou dez anos pesquisando as causas do TDC antes de escrever um livro sobre o tema: "Lindos de Morrer - Dismorfia Corporal e Outros Transtornos Obsessivos". Traumas de infância ligados ao bullying e a outras formas de violência têm ligação com a doença, assim como a química cerebral. "Em geral, há uma deficiência de serotonina, o que pode ter relação com a obsessão pela imagem. Antidepressivos que inibem a recaptação da serotonina e fazer sessões de psicoterapia são medidas que ajudam", diz.

O TDC também tem forte componente genético, segundo a psiquiatra Roseli Shavitt, do Projeto Transtorno Obsessivo Compulsivo, grupo do IPq da USP. Ali, ela atende 150 pacientes de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). "De 10% a 20% deles têm também o TDC. A genética familiar pesa bastante, sendo que o TDC é mais prevalente em parentes de primeiro grau de pessoas com TOC. Para tratar esses casos é indicado procurar centros universitários ligados às faculdades de medicina."

INCIDÊNCIA - O TDC atinge ambos os sexos em igual proporção, em geral no começo da adolescência. Os três grupos de discussão sobre o tema na internet, aliás, são comandados por homens. Rodrigo Freitas, 33, participa de um deles. "Quem tem o problema nunca fica satisfeito. Fiz uma cirurgia para corrigir as orelhas, outra no queixo, agora é o nariz que me incomoda", diz.

Freitas é um rapaz de pele e cabelos claros, com feições proporcionais. Mas não é essa imagem que o espelho lhe mostra. "Às vezes, aparece uma coisa disforme, uma massa amorfa, um Gasparzinho", conta. Ele atribui o problema às gozações sofridas na infância por conta das orelhas de abano. "Ter orelhas ‘normais’ se tornou um dever", continua.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica - São Paulo, Carlos Alberto Komatsu, a fronteira entre TDC e vaidade é tênue. "Não é fácil de detectar isso. São pessoas que perdem a noção de realidade, estão perfeitas e querem mexer em algo. É como na anorexia, em que o doente está magro e se vê gordo", compara. (G.R./AE)

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