cidades verde no Fórum Urbano Mundial - Brasil - iG" /

Especialistas discutem projetos de cidades verde no Fórum Urbano Mundial

A ideia de um mundo repleto de ¿cidades verdes¿, ambientalmente sustentáveis e preparadas para os impactos decorrentes do desenvolvimento, parece ainda ser um sonho distante neste início de século XX. Aos poucos, porém, projetos inovadores, compromissos de governos, empresas e população e campanhas de mobilização podem fazer a diferença para evitar que as cidades sejam vistas como vilãs do meio ambiente e fonte de poluição e desperdício. É o que pensam especialistas dedicados ao assunto, reunidos esta semana no Fórum Urbano Mundial, no Rio de Janeiro.

Rodrigo Almeida, iG Rio de Janeiro |

Organizado pela ONU-Habitat, o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos, o fórum vem tentando reafirmar entre os seus quase 20 mil participantes o que se convencionou chamar de direito à cidade ¿ o reconhecimento dos direitos das pessoas que vivem na cidade como um direito fundamental. A ONU-Habitat tem chamado a atenção, por exemplo, para o urbano dividido, tendência de uma urbanização fadada à segregação especial, ao uso maior de energia e aos altos custos financeiros.

Uma parcela dos especialistas, no entanto, vai além. Defende o direito à cidade verde, requisito, segundo eles, para enfrentar o problema da mudança climática no planeta. As cidades causam muitos problemas e são, ao mesmo tempo, soluções. Essa premissa vale, em especial, para as questões ecológicas e ambientais. Precisamos urgentemente de cidades verdes, e formar alianças para concebê-las, afirma Annette Von Schönfeld, diretora da Henrich Böll Stiftung, uma fundação da Alemanha dedicada, entre outras coisas, a pensar políticas verdes para as cidades.

Annette mediou um dos debates desta quarta-feira, no Fórum Urbano Mundial. Ao lado dela, especialistas da Alemanha, Argentina e México dividiram com a plateia experiências inovadoras e ideias para alcançar uma meta que ainda é vista como cara e de difícil aplicação.

Exemplos

Um dos exemplos foi descrito por outra integrante da Fundação Henrich Böll, Judith Utz. Ela citou a experiência da cidade de Masdar (Cidade fonte, em árabe), que está sendo construída em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. A concepção exibe um modelo inusitado: zero de carbono, zero de resíduos e zero de veículos. A eletricidade será gerada por energia solar e eólica, e a água, fornecida por meio de processos de dessalinização. A maioria das ruas terá apenas três metros de largura e 70 de comprimento para facilitar a passagem do ar e incentivar a caminhada.

Modelo similar aparece em Xeritown, um complexo urbano construído em Dubai. Também sem automóveis, a cidade incentivará um estilo de vida pedestre, com engenhosidade para facilitar o uso de energia e ventilação naturais ¿ aproveitando a brisa fresca que vem do mar e obstruindo o vento quente do deserto. Os edifícios serão altos para fornecer sombras para as ruas. Em vez das árvores, bastante dependentes da água, estruturas circulares lisas com painéis destinados a gerar energia solar a ser usada em toda a cidade.

O modelo parisiense de uso coletivo de bicicletas como meio de transporte público também foi lembrado. Inaugurado em 2007 e exemplo para várias cidades européias e, desde 2008, também para o Rio de Janeiro, o Vélib permite o aluguel self-service de bicicletas, em estações espalhadas pela cidade. Pode-se alugar por um dia (1 euro), uma semana (5 euros) ou um ano (apenas 29 euros).

É um exemplo muito lindo da Europa, define Judith Utz, coordenadora de políticas municipais e desenvolvimento urbano da Fundação Henrich Böll.  Para ela, a ação é local, mas a responsabilidade deve ser global ¿ premissa, diz, para atender à necessidade de vivermos num ambiente são.

América Latina

As ações não se resumem ao mundo rico, garantiu o secretário do Meio Ambiente da Cidade do México, José Bernal Stoopen. Para uma cidade com 21,1 milhões de habitantes (é uma das mais populosas do mundo), trânsito caótico e grandes problemas de poluição e segurança, projetos eficazes de transporte são essenciais não só para facilitar o trajeto da população como reduzir o tamanho das emissões de gás carbônico.

O projeto descrito por Bernal Stoopen inclui corredores especiais de ônibus ¿ com direito a um Corredor de Emissões Zero, destinado a mitigar as emissões de carbono. Mais: restrição de circulação de veículos, incentivo ao uso de bicicletas (o Ecobici) e táxis, além da ampliação das linhas do metrô. (A rede da cidade mexicana tem 250 quilômetros de extensão, contra pouco mais de 60 quilômetros em São Paulo). É um grande desafio em termos econômicos, pois incluem ações de mitigação, adaptação e comunicação. É uma revisão completa do modelo, definiu o secretário.

Outro especialista, o argentino Pablo Bertinat, relatou a experiência da cidade de Rosário, na Argentina, onde o governo local tem executado programas em parceria com universidades e organizações não governamentais de uso de energia solar. Diretor do Programa Argentina Sustentável, Bertinat defendeu a ideia de que a luta contra a pobreza e pelo meio ambiente é uma coisa só. Os caminhos são conjuntos e só assim conceberemos uma cidade de direitos sociais e verdes, disse.

Limites

O argentino afirmou que a construção de um mundo repleto de cidades verdes esbarra em fatores como desinformação, falta de instituições dedicadas à causa ambiental e da ausência de propostas para a transição do modelo atual para um outro sustentável.

Com 25 anos de experiência teórica e prática no assunto, Pablo Bertinat ressaltou, no entanto, que nem o sobreconsumo é ecologicamente sustentável, nem a privação é socialmente sustentável. Ainda não encontramos um modelo de transição, mesmo reconhecendo que a humanidade depende da biodiversidade natural, afirmou.

    Leia tudo sobre: fórum urbano mundialmeio ambienteonupoluição

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG