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Especialistas avaliam operação de choque de ordem pública no Rio como marqueteira

RIO DE JANEIRO ¿ Desde a última segunda-feira, a Prefeitura do Rio vem realizando diversas operações de choque de ordem pública na capital fluminense. De acordo com o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), as ações têm como objetivo reprimir e combater a desordem urbana e a ilegalidade na cidade. Para alguns especialistas em planejamento urbano, as medidas que vêm sendo tomadas devem ser avaliadas criteriosamente. Segundo eles, as ações são necessárias para que se restabeleça a ordem pública, mas a forma como vêm sendo conduzida é ¿marqueteira¿.

Anderson Dezan, repórter do Último Segundo no Rio |

Acordo Ortográfico

Eu não sei se há realmente um projeto de construção da ordem na cidade do Rio de Janeiro ou se essas são medidas de marketing, declarou José Augusto Rodrigues, diretor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Para Rodrigues, essa política de governo adotada por Eduardo Paes é uma forma de marcar o início de uma nova gestão que, sem dúvida, será comparada com a anterior, de Cesar Maia (DEM). Tem uma política por trás muito nítida que pretende inventar uma nova era, ou seja, um novo Rio que se ergue das cinzas, analisou.

O último mandato de Cesar Maia, principalmente, foi marcado por brigas e falta de políticas cooperadas entre o governo estadual e a prefeitura. Segundo o cientista social, o fato de Eduardo Paes ser do mesmo partido do governador Sérgio Cabral e de ter sido apoiado por ele durante a campanha eleitoral dá indícios de que as políticas de ordem urbana serão mais eficazes na atual gestão municipal.

Todas as ações de ordem pública tomadas pela prefeitura nesses últimos dias contaram com o apoio de órgãos estaduais, como a Polícia Militar. Isso mostra para o povo que há uma integração entre a Prefeitura do Rio e o Governo do Estado.

AE

Guardas municipais e garis recolhem mercadorias de uma feira popular no Rio de Janeiro

Mesmo avaliando as ações, de certa maneira, como marqueteiras, José Augusto Rodrigues ressalta que elas são cabíveis. Segundo o especialista, se a nova prefeitura quer de fato combater a desordem urbana, ela terá que estipular parâmetros rígidos para que o objetivo seja alcançado.

A reconstrução provável da ordem pública exigirá medidas drásticas, disse Rodrigues. Se você quer restabelecer a ordem vai ter que ferir o interesse de muitos. Os interesses que você vai ferir pressupõem estratégias de sobrevivência da população de baixa renda. No momento em que há cooperação entre a prefeitura e o governo estadual, podem ser desenvolvidas medidas compensatórias.

Até ontem, segundo o balanço da Secretaria Especial de Ordem Pública, os fiscais da Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização (CLF) da Prefeitura do Rio haviam recolhido 189 moradores de rua, multado 897 veículos, rebocado outros 189 automóveis e apreendido mais de 100 toneladas de entulhos e produtos diversos. No bairro do Flamengo, zona sul da cidade, os agentes encontraram um galpão que era utilizado como estoque por ambulantes irregulares. No local foram apreendidos alimentos perecíveis, cadeiras, mesas, freezers, carrocinhas e espreguiçadeiras de praia.

Zulmair Rocha/Divulgação

Cerca de 30 outdoors estão irregulares em Botafogo, segundo a Prefeitura do Rio

Efetivamente existe uma rede clandestina de contrabando de alimentos e mercadorias. Sem uma ação rígida de repressão a esses depósitos não vai haver ordem, afirmou o cientista social. É alarmante o número de ambulantes que surgem vendendo a mesma marca de guarda chuva ou capa de chuva assim que um temporal atinge a cidade.

Para Rodrigues, o argumento usado por muitos de que é melhor que os ambulantes trabalhem honestamente do que cometam crimes pelas ruas não é convincente. Segundo o especialista, dessa forma os ambulantes não estão ganhando a vida.

Eles estão contribuindo para um sistema clandestino que foi se montando nos últimos anos. Um sistema que não paga os direitos dos trabalhadores e que explora a força de trabalho dessas pessoas, argumentou.

Mudanças

Para o cientista social Dario Souza, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em sociologia urbana, as ações de ordem pública na capital fluminense criam uma grande expectativa na população de que a segurança se restabeleça. No entanto, de acordo com ele, as mudanças na cidade não podem partir somente do governo. Segundo Souza, é preciso que a população também mude a mentalidade e evite atitudes como dar esmolas e comprar produtos piratas.

Essa ambiguidade é uma cultura do brasileiro. Ao mesmo tempo em que pede ordem pública, ele contribui para a ilegalidade, analisou. O grande desafio que a nova gestão terá de enfrentar será como tratar a questão da informalidade. As pessoas se sentem incomodadas com o camelô atrapalhando a movimentação nas calçadas, mas não deixam de comprar um programa pirata de computador com eles.

AE

Retroescavadeira destrói imóvel construído irregularmente no Recreio dos Bandeirantes

Assim como José Augusto Rodrigues, Dario Souza enxerga um cunho marqueteiro nas operações de combate à desordem urbana. Para ele, há uma necessidade política na nova gestão municipal de marcar uma nova administração que se contraponha à anterior. O especialista, entretanto, acha válida a tentativa de melhora contato que ela que seja criteriosa. Souza lembra que a desordem pública tem motivos variados e, por isso, a nova política deve possuir um objetivo claro para que não se perca.

Essas renovações têm que ser consistentes e criteriosas, disse o cientista social. Uma política que se preza deve ter estipulado qual é a ordem mínima a ser atingida. Quais são as metas a serem alcançadas, finalizou.

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