Especialistas apontam soluções para o combate às enchentes

Especialistas ouvidos pela reportagem do iG concordam que, apesar do grande volume de chuva que atinge em especial as regiões Sudesde e Sul do País, há solução para o problema das enchentes. Eles afirmam que não dá para culpar o clima pelos desastres ocorridos neste verão e enumeram uma série de medidas que deveriam já ter sido tomadas.

Camila Nascimento, iG São Paulo |

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    Combate à erosão

    De imediato, é preciso que se faça uma redução máxima do assoreamento das drenagens naturais e construídas por meio de rigoroso e extensivo combate à erosão do solo nas frentes de expansão metropolitana, assim como ao lançamento irregular de lixo urbano e entulho de construção civil, diz Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo e ex-diretor de Planejamento e Gestão do Instituto de Pesquisa e Tecnologia (IPT). Ele cita ainda a ampliação das calhas do rio.

    Segundo Santos, na região metropolitana de São Paulo, a perda média de solos por erosão está estimada entre 10 a 15 toneladas de solo por hectare, ao ano. Ele explica que o resultado são 3.570.000 m³/ano de sedimentos, o correspondente a 250 mil caminhões. É uma tragédia geológica o que vem sendo feito em São Paulo há anos. Culpar a chuva é muito comodo, afirma.

    De acordo com o Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee), os 70 grandes rios, córregos e galerias que deságuam no Rio Tietê, somado às 569 galerias pluviais e de drenagem, têm, juntos, cerca de 364,7 mil toneladas de areia e lixo acumulados nos leitos.

    AE
    Passageiros de micro-ônibus usam bote para deixar veículo

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    Combate à impermeabilização

    Acabar definitivamente com as enchentes, não tem como. Mas dá, sim, para amenizar o problema, afirma o professor Kokei Uehara, engenheiro hidráulico pela Escola Politécnica da USP.  Para ele, um dos pontos que precisa ser trabalhado é o aumento da permeabilidade do solo. Uehara cita, por exemplo, o uso de concreto mais poroso na pavimentação do solo. Cada centímetro que se impermeabiliza tem reflexo no escoamento da água e na consequente cheia de rios e inundações. 

    A cidade desenvolveu-se sob a cultura da impermeabilização. É preciso recuperar a capacidade de infiltração e retenção de águas pluviais em toda a área urbanizada, completa Santos. O geólogo cita a criação de reservatórios domésticos e empresariais, assim como a ampliação de áreas verdes.

    Revisão de áreas ocupadas

    Uma ação contínua de planejamento e de ordenamento territorial, apesar das falhas históricas, poderia prevenir algumas das tragédias ocorridas neste verão. A avaliação é do geólogo, pesquisador e diretor adjunto do Instituto Geológico (IG), vinculado à Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Paulo César Fernandes da Silva.

    Os municípios tem que tomar conta do uso de seu solo e da ordenação do seu território. A ausência de planejamento é cultural. O que estamos vendo é que, onde foi registrado um problema por conta da chuva, a falta de planejamento fica mais evidente, disse.

    Um mapeamento feito entre 2002 e 2003 mostrou que a cidade de São Paulo tinha na época 522 áreas de risco, com cerca de 11,5 mil moradias. Destas áreas, 285 apresentavam risco alto ou muito alto de deslizamento. As áreas de risco deveriam ser mapeadas anualmente, mas o último levantamento em São Paulo foi feito há sete anos.

    Segundo a Prefeitura de São Paulo, até o fim de junho, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) fará um mapeamento das áreas de risco. Durante os últimos meses, empreendimentos públicos como os apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) e o Centro Educacional Unificado (CEU), construídos no Jardim Pantanal, zona leste da cidade, ficaram alagados.

    AE
    Criança tira com pá de área atingida por deslizamento

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    Ação e planejamento

    A Holanda é uma das regiões da Europa mais suscetíveis a enchentes, pois o país tem 26% de seu território abaixo do nível do mar. Lá, o governo trabalha há anos com um plano de reordenamento territorial, que prevê um recuo nos diques de contenção, ampliando as áreas de alagamento. Em 2006, a Holanda gastou cerca de 50% de todos os investimentos do governo, aproximadamente 3 bilhões de euros, para medidas de enfrentamentos das variações climáticas.

    Além disso, um projeto arquitetônico pioneiro com o apoio do governo da Holanda foi colocado em prática no vilarejo de Maasbommel, a 100 quilômetros de Roterdã. Quarenta cinco casas anfíbias foram construídas em uma área de grandes enchentes. Nesta região, os moradores dependem de barcos para chegar em casa. Nos demos conta de que não seria possível continuar elevando indefinidamente a altura de nossos diques. Era preciso buscar outras soluções , disse Ralf Gaastra, responsável pela ideia.

    A cidade de Tóquio, no Japão, também é apontada como exemplo pelos especialistas ouvidos pelo iG. Entre as preocupações do governo está a detenção das águas pluviais, com a construção de reservatórios capazes de armazenar bilhões de metros cúbicos de água, e a sua utilização para fins não-potáveis. A água é utilizada em serviços privados e públicos, ou ainda em situações de emergência, como escassez de água ou incêndios, explica Santos. Essas cidades, com planejamento, estabeleceram uma relação mais harmônica com suas águas superficiais e profundas, finaliza.

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